quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Amazônia que morre

Lúcio Flávio Pinto
 
Fui um crítico constante da hidrelétrica de Tucuruí durante sua construção, de 1975 a 1984, ano em que a usina, instalada sobre o leito do rio Tocantins, foi inaugurada, como a quarta maior do mundo. Mas não era um crítico à distância: estava sempre na obra. E, por incrível que pareça, conversando com os “barrageiros”, que me atendiam. O diálogo parecia então mais fácil do que agora, talvez porque tinha um tom mais marcadamente técnico.

Certa vez, um deles, para me demonstrar que todos ganhariam com a hidrelétrica, me levou para percorrer as novas cidades. Elas estavam sendo preparadas para receber a população que seria remanejada da beira do rio para a formação do reservatório. O futuro lago artificial, o segundo maior do Brasil, alagaria uma área de três mil quilômetros quadrados (mais de duas vezes o tamanho de Belém, com seus 1,4 milhão de habitantes).

O engenheiro tinha todos os motivos – mas os seus motivos – para achar que os ribeirinhos viveriam muito melhor nas novas cidades. Lá eles teriam casas de alvenaria, ruas pavimentadas, água, luz e todos os serviços básicos, que não existiam na margem do rio. Mas eu não tinha dúvida de que os remanejados não iam partilhar a convicção do técnico.

É claro que eles estariam em melhores condições materiais num núcleo urbano planejado. Mas lhes faltaria no novo domicílio algo que todas essas vantagens não seriam capazes de compensar: o próprio rio.

O Tocantins era sua rua, sua fonte de água, de alimento, de trabalho, de vida. Depois de tantas gerações se sucedendo na margem do vasto curso d’água, tirar dele as vantagens, minimizando os prejuízos eventuais, era o grande patrimônio dessa população. Um aprendizado de séculos. Conhecimento experimental, empírico, sofrido, valioso, único.

Subitamente, são remanejados rigorosamente manu militari (o primeiro presidente da Eletronorte, subsidiária da Eletrobrás responsável pela hidrelétrica, foi um coronel-engenheiro do Exército, Raul Garcia Llano). O legado de séculos no trato com o ciclo das águas, subindo e descendo por turnos semestrais, se tornou inútil na terra firme, longe do rio, em ambiente pouco conhecido.

Pelos critérios quantitativos, o engenheiro podia provar matematicamente que a mudança foi positiva. Por essa régua, também é superavitário o balanço da transformação que ocorreu na Amazônia no último meio século, principalmente em função de “grandes projetos”, como o de Tucuruí, que representou investimento superior a 10 bilhões de dólares.

Mas o triunfalismo da história oficial se vale da ausência de um índice capaz de medir e traduzir numericamente a felicidade. Se houvesse esse indicador de satisfação, ele revelaria a tristeza do homem obrigado a trocar o rio à sua porta pela casa de alvenaria no meio da mata – que, aliás, desapareceu.

O homem da Amazônia é detalhe ou enfeite no “modelo” (que nada tem de modelar) de integração forçada da região ao país e ao mundo. Modelo definido a partir de fora para fazer a vontade do migrante, seja ele pessoa física ou empresa, João da Silva ou Vale do Rio Doce, nascido no país ou vindo do exterior (quanto mais distante, mais poderoso).

Para a “modernização” compulsória pouco importa que o nativo esteja ou não feliz. Seu mundo está condenado a desaparecer. Tudo que é considerado primitivo, atrasado e isolado será progressivamente esmagado pela máquina que produz mercadoria, à medida que ela vai avançando sobre as novas áreas. Seu rótulo é a única fonte válida de valor, do que interessa ao mercado. O mais é descartável, inútil.

Jornalista é convidada para dirigir a Funtelpa


A jornalista Marlice Bemerguy, ex-editora da TV Record Belém, foi convidada pelo governador Simão Jatene para assumir a presidência da Fundação de Radiodifusão do Para(Funtelpa).

Marlice tem até hoje para dizer se topa ou não comandar a TV/Rádio Cultura. 
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Atualização às 15h30:

O secretário de comunicação do estado Ney Messias anunciou ainda há pouco, pelo twitter, que o governador Simão Jatene escolheu a também jornalista Adelaide Oliveira, apresentadora da Tv Nazaré, para a presidência da Funtelpa.


O homem do delegado-geral

O delegado Gilberto Aguiar é o nome preferido pelo delegado-geral Nilton Athayde para ocupar a suprintendência de Polícia Civial do Baixo-Amazonas.

Se Gilberto não sobreviver ao desgaste que vem sofrendo por causa de um episódio familiar, o delegado Sílvio Birro será o indicado para o cargo.

Os nomes de Helenilson


O vice-governador Helenilson Pontes fez uma lista particular de nomes que gostaria de ver na direção de órgãos estaduais em Santarém.

Encabeçam a lista a advogada Roberta Merabeth, indicada para o Detran, o pedago Dayan Serique recomendado para a 5a. Unidade Regional de Educação e o odontólogo Ildemar Portela sugerido para a chefia da Sespa.

Vice-campeão


Santarém é o vice-campeão em casos de dengue na região oeste do Pará, perdendo o posto apenas para Itaituba.

De 2009 para cá, o número de casos da doença aumentou em cerca de 40%.

No olho da rua


A prefeita Maria do Carmo abriu o saco de maldades em 2011.

Mandou para o olho da rua centenas de servidores temporários sob a alegação de que chamará concursados para essas vagas.

A barca da dispensa aportou nas secretarias de cultura, infra-estrutura e educação.

Só na Semed, 60 temporários foram dispensados, a maioria professores da região dos rios.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ana Júlia inaugurou sistema de água que não funciona


Mais de 600 famílias do bairro da Conquista, na perifeira de Santarém, passaram o Natal e o Reveillon sem água nas torneiras.
O sistema de água, inaugurado há 12 dias pela ex-governadora Ana Júlia Carepa, não funciona.

Segundo o engenheiro da Cosanpa,Wisnand Ribeiro, a inauguração foi feita às pressas, antes da fase de testes dos equipamentos e por isso a água ainda vai demorar pelo  menos um mês até chegar às torneiras dos moradores daquele bairro.

Mais um hospital regional no Oeste


O governador Simão Jatene anunciou, ontem, em entrevista à Tv Liberal, que o governo do estado vai construir mais dois hospitais regionais, um deles na região oeste do Pará, provavelmente em um município da Calha Norte.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As transições críticas: do nada a lugar algum


Lúcio Flávio Pinto:
 
Em 1991 Hélio Gueiros não transmitiu a faixa de governador ao seu sucessor, Jader Barbalho. Enquanto o ex-aliado tomava posse, em 15 de março de 1991, para o seu segundo mandato, o caixa da agência da avenida Senador Lemos do Banco do Estado do Pará funcionava para pagar empresas privilegias do esquema de apoio político de Gueiros, que, na forma da lei, já não era mais o chefe do poder executivo paraense. Como a lei sempre foi considerada potoca pelos herdeiros do caudilho Magalhães Barata, quando contrariava os seus interesses, o governador que saía nem se importou. E ficou em casa, ao invés de ir ao palácio Lauro Sodré passar o cargo a Jader, que venceu o candidato de Gueiros, o atual vereador Sahid Xerfan.

Esta talvez tenha sido a pior transição no governo do Pará desde a redemocratização do país. Nenhuma outra chegou a esse nível de hostilidade, imprevisível quando o próprio Gueiros recebeu a faixa das mãos do governador Jader Barbalho, em 1987. De amigos e correligionários, passariam a inimigos mortais, travando uma das mais violentas batalhas eleitorais da história. O que não os impediu de se reconciliar depois, ignorando tudo o que cada um disse do outro durante vários meses seguidos.

A transição entre Ana Júlia Carepa, do PT, e Simão Jatene, do PSDB, não é nem uma pálida reedição de outras sucessões conflituosas, mas também não é pacifica. Sobretudo, não resulta de um entendimento de alto nível entre as duas principais autoridades públicas do Estado. Uma devia contribuir para que a outra assuma da melhor maneira possível, o que requer, antes de mais nada, lealdade e verdade, na forma de informações exatas e contas abertas.

Os tucanos, porém, já sabem que herdarão um cavalo de Tróia, em cujo ventre haverá muitas surpresas, infelizmente desagradáveis para eles (e para nós). Queixam-se de não receber todas as informações solicitadas e as que lhes foram fornecidas estarem incompletas, não permitindo ter um quadro verdadeiro da engrenagem estatal que irão receber. Mas desconfiam que, até o último dia do seu mandato, a equipe de Ana Júlia trabalhará para tapar buracos e utilizará todos os recursos financeiros disponíveis – ou mesmo avançará sobre o orçamento seguinte, de 2011, por ela enviado ao legislativo.

De certa forma, porém, os petistas estarão quase repetindo o que os tucanos fizeram em 2007. Um dia antes da posse do sucessor, em 31 de dezembro, o governo Jatene disparou atos e providências que afetariam a gestão de Ana Júlia, dentre os quais um autêntico presente de grego: a prorrogação do escandaloso “convênio” (na verdade, um contrato) entre a Funtelpa e a TV Liberal, iniciado na administração Almir Gabriel.

Também os pessedebistas não deram informações sobre a quantidade de assessores especiais contratados pelo gabinete do governador, um dado de divulgação obrigatória que permaneceu sigiloso durante o quatriênio de Jatene. Neste aspecto, o PT não inovou. Só agora, por força da pressão da equipe de transição, sabe-se que o número foi parar em 1.800 assessores, um recorde que o PT conseguiu tirar de Jader Barbalho, o que parecia impossível.

Por trás da tentativa de manter as aparências de cordialidade entre o governo que sai e o que entra, as bicadas que tucanos e petistas têm travado deixam à mostra as descontinuidades na administração pública no Pará. O governo que encerra o seu mandato esconde informações e tenta criar dificuldades para o sucessor, enquanto este se recusa a partilhar o que pensa e pretende fazer depois que assumir o comando do poder executivo.

O revezamento se torna ainda mais complicado quando o chefe da nova equipe já exerceu o cargo de governador, como é o caso de Simão Jatene. Não lhe falta a consciência de que, ao passar o bastão, manteve debaixo do tapete situações que haveriam de repercutir negativamente depois. A lealdade seria um elemento fundamental para dar coerência e continuidade ao processo de sucessão. Na diversidade e alternância próprias da democracia, garantiria o principal: a defesa do interesse público. Quando os apetites pessoais de poder prevalecem, o que devia ser fundamental se torna secundário, quando chega a ser lembrado.

Na esgrima entre os principais executores da transição do PT ao PSDB, o secretário de governo, Edilson Martins, tem razão ao reclamar da inexistência de um programa de governo por parte dos tucanos. É uma crítica que ele podia fazer retroceder quatro anos: Ana Júlia também assumiu sem qualquer programa de governo. Limitou-se à ladainha do orçamento programa, da participação popular nas audiências públicas e outros axiomas do catecismo petista. Mas nada fez de concreto para cumprir a promessa, que lhe proporcionou a vitória na eleição de 2006, de mudar o Pará.

O Pará de 2010, no que dependeu da ação pública estadual, só não é exatamente o mesmo porque, neste quesito, está um tanto pior do que em 2002. O Pará que avançou e mudou, talvez também para uma situação estruturalmente pior, porque dependente ainda mais do extrativismo mineral e seus elos coloniais, viveu à revelia do Estado – ou contra ele, quando bloqueou seus caminhos.

O último governo que planejou o que fazer foi o de Aloysio Chaves (1975/79). Seu maior mérito foi o de ter buscado maior grau de autonomia para o Estado. Seu maior fracasso foi o de não ter conseguido alcançar essa meta: o presidente que tornou possível sua ascensão, o prussiano general Ernesto Geisel, esmagou as pretensões de independência. O domínio da União se tornou esmagador. A autonomia virou elemento decorativo num cerrado planejamento unitário, que só não era bolchevique nos fins.

De lá para cá os governos estaduais se encarregam de fazer decorações no cenário, atender as clientelas e, a partir da instituição da reeleição, procurar uma forma eficiente de permanecer no poder por mais um mandato. Almir Gabriel foi o primeiro a conseguir o objetivo e também fazer o seu sucessor. Simão Jatene chegou ao final do seu mandato como favorito à reeleição. Nem mesmo um candidato à altura se oferecia no horizonte, quando lá Almir surgiu de novo, atropelando um projeto que permitiria ao PSDB realizar no Pará o sonho que se frustrou no país porque Fernando Henrique Cardoso chegou com grande impopularidade ao fim do seu mandato.

A intrusão de Almir acabou com o discurso do PSDB paraense de que a defesa de um projeto para o Estado estava acima de qualquer pretensão pessoal dos seus integrantes. A nova candidatura de Almir, depois dos oito anos em que ele frustrou as melhores expectativas em torno do seu passado, não passava de um projeto pessoal de poder. Espero, Jader Barbalho colocou Ana Júlia no ringue e mandou o ex-governador para a lona. Achava que assim punha fim à hegemonia dos tucanos, que ameaçava prolongar-se perigosamente.

Só não podia imaginar que a sua aliada faria um governo tão desastroso, chegando literalmente ao fim em meio a tantos e tão desconcertantes escândalos quanto no seu começo. Como em outros Estados e municípios em que começou mal, o PT do Pará não conseguiu o voto de confiança para tentar outra vez. Ficou em 2ª época e foi reprovado. O principal efeito do desempenho medíocre foi tirar Simão Jatene do poleiro da aposentadoria e das embaraçantes linhas de pesca para a condição de favorito, que quase venceu no 1º turno, o que significaria a culminância do desastre, tornado absoluto, completo.

Os risos, apertos de mãos e tapinhas nas costas entre vencedores e vencidos depois da batalha, se chegaram a provocar interpretações quanto a uma possível composição entre o PSDB e o PT, evaporaram no avançar da transição, quando foi instalada uma guerra de guerrilhas. Os tucanos estão convencidos de que herdarão uma terra arrasada e não poderão ter um inventário da situação real senão quando assumirem oficialmente o governo.

Os petistas, temendo sofrer nas mãos dos tucanos o padecimento que lhes tentaram impor quando conduziram a investigação da Auditoria Geral apenas para o passado (e tiveram uma das suas mais desagradáveis surpresas quando a auditora-chefe colocou o próprio governo do PT na linha de tiro, antes de pular fora do barco adernante), trataram de empurrar tudo que fosse indesejável para tapetes e armários, lacrar os postas restantes e consumar os acertos que deviam ser arrematados no governo seguinte, na hipótese da vitória de Ana Júlia.

O tom patético da entrevista de Edílson Rodrigues ao Diário do Pará resulta da tentativa de um técnico capacitado de tangenciar as questões graves e controversas e ignorar as falhas que ele próprio apontaria se não lhes fosse o autor. Em alguns momentos, ele fornece munição contra si. Na questão – de moral negativa – dos servidores temporários, admite que, obrigado pelo Ministério Público, Jatene reduziu o quadro de 22 mil para 16 mil integrantes.

O PT quase extinguiu esse remanescente, deixando-o em 700. Mas nomeou outros 11,3 mil, contingente que devolverá a Jatene, prosseguindo-se essa novela de gato e rato em torno da moralidade e do interesse público, enquanto os concursados se mantêm em longa fila de espera.

As manobras em torno dos números do orçamento não camuflam uma realidade escancarada para quem consegue ver através das rubricas: a capacidade de investimento do Estado pelos próximos anos será mínima. As despesas de custeio e de pessoal cresceram tanto que avançaram sobre o capital. Resta a alternativa aos novos dirigentes de recorrer a empréstimos porque a capacidade de endividamento é alta. Alta não por falta de desejo de usá-la, mas de competência para obtê-la. Parece que os agentes financeiros não acreditam muito na capacidade de gestão dos atuais governantes. Terão essa confiança nos novos?

Ter ficado quatro anos à margem do poder poderia dar a Simão Jatene uma nova capacidade de visão e reflexão, um distanciamento favorável ao técnico, permitindo-lhe corrigir os erros do primeiro mandato e adensar-lhe as qualidades. Mas seu retorno ao governo parecia tão improvável que sua viabilização exigiu compromissos e amarras políticas e econômicas tais que o vácuo dos quatro anos pode servir mais para enfraquecer a sua não muito elogiável capacidade de comando, resultando num hibridismo sem direção coerente.

A emergência do PMDB num governo do qual não foi aliado e do qual, ao início do processo eleitoral, era adversário, desnuda a importância que Jader Barbalho teve nos bastidores, em favor do tucano, a partir do rompimento com o PT paraense (mas não com o PT nacional, ao menos até a undécima hora). A eterna litania em torno de fidelidade e traição a compromissos não escritos de campanha vai ser revivida nos primeiros meses do governo Jatene.
O teste também se aplicará ao grupo Liberal, que acompanhou o movimento pendular do seu maior inimigo, o mesmo Jader Barbalho, na desatracação da frota petista à medida que seus rombos se exibiam, antecipando o naufrágio anunciado. Como Simão Jatene atenderá seus antagônicos companheiros de meio de caminho e se protegerá (ou se livrará) de seus tiros a esmo?

O gosto que essas questões deixa é de prato requentado inúmeras vezes – e que já não era satisfatório quando do primeiro cozimento. Essa simetria foi bem assinalada pelo futuro super-secretário tucano, Sérgio Leão. Respondendo à entrevista do dia anterior de Edílson Rodrigues, ele disse ao Diário do Pará que o PT da transição de 2010 repetia o PSDB na passagem de 2006: “Quando, na transição passada, [os petistas] pediram informações das contas do Estado, dissemos que entregaríamos no dia 31 de dezembro. Nós pedimos a mesma coisa para eles e deram, agora, a mesma resposta para a gente”.

Santa sinceridade. Macabra realidade.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Governo do Pará ajuiza ADI no STF por vício de iniciativa em lei que alterou divisão de recursos de empréstimo de 366 milhões junto ao BNDES

Do site do STF:

O Governo do Estado do Pará ajuizou Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4516), com pedido de medida cautelar, no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o artigo 6º e anexos I e II da Lei estadual nº 7424/10. Conforme a ação, essa norma aumenta a despesa do estado, violando o artigo 63, da Constituição Federal.
Consta da ADI que os dispositivos questionados autorizam o Poder Executivo a contratar operação de crédito junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no âmbito do Programa Emergencial de Financiamento aos Estados e ao Distrito Federal – PEF/BNDES, para aplicação no estado do Pará. Tal situação, de acordo com o autor, afronta a Constituição Federal, em atenção ao princípio da simetria, uma vez que a Lei estadual nº 7424/2010 é de iniciativa do chefe do Executivo, portanto não poderia sofrer alteração por emenda parlamentar.
O artigo 6º e os anexos I e II, que vincularam os valores do empréstimo, não constavam do texto encaminhado ao Legislativo, tendo sido incluídos na lei estadual pela Assembleia Legislativa do estado do Pará.
O anexo I prevê repasses em torno de R$ 1 milhão para os municípios do paraenses, enquanto que, pelo o anexo II, várias foram as ações previstas para a execução direta pelo estado. “Significa que, nesse caso, não haveria qualquer transferência de recursos para os municípios, mas simples realização de ações cujos ônus financeiros seriam suportados pelo ente público”, ressalta. 
De acordo com a ADI, a lei questionada aumenta a despesa do estado na forma do artigo 6º, com a destinação de recursos a alguns municípios elencados nos anexos I e II. A norma constitucional veda esse aumento de despesa, em benefício desses municípios, decorrente de emenda parlamentar.
“Registre-se que, ao autorizar o empréstimo, está-se repercutindo no plano plurianual e no orçamento anual do estado, a ensejar a iniciativa privativa nesse caso”, afirma o governo, ao destacar que além de ter sido transgredido o artigo 63, da CF, também houve violação ao artigo 106, inciso I, da Constituição do estado do Pará.
Além disso, salienta que o Supremo já se manifestou diversas vezes sobre a matéria no sentindo de que são inconstitucionais dispositivos das constituições estaduais, inclusive emendas, que aumentem a despesa pública, tendo em vista que é da competência do chefe do Poder Executivo a iniciativa de lei sobre a matéria. “Sem zelo pela ordem administrativa e econômica do estado, que foram afetadas pelo conteúdo da Lei Estadual nº7424/2010, fica comprometido o desempenho de suas competências constitucionais na implementação de políticas públicas”, completa.
Assim, o governo do estado do Pará pede o deferimento da medida cautelar para suspender os efeitos do artigo 6º e anexos I e II da Lei estadual nº 7424/10. Ao final, solicita que seja julgado procedente o pedido para declarar a inconstitucionalidade do dispositivo.

JUSTIÇA- Quando a lei fede


Lúcio Flávio Pinto:
 
Uma juíza do Pará obrigou o Conselho Nacional de Justiça a avançar sobre sua competência e pela primeira vez interferir numa decisão judicial. O caso era muito grave e exigia providência enérgica e imediata. Podia resultar num rombo de R$ 2,3 bilhões ao Banco do Brasil.

O Conselho Nacional de Justiça foi criado há cinco anos e meio como um órgão de controle administrativo do poder judiciário, não podendo interferir em decisões judiciais. Mas na semana passada a entidade decidiu abrir a primeira exceção: a corregedora, Eliana Calmon, suspendeu liminarmente decisão da juíza da 5ª vara cível de Belém, Vera Araújo de Souza. De forma também liminar (isto é, sem consultar a parte contrária), a juíza paraense havia decretado o bloqueio de nada menos do que 2,3 bilhões de reais no Banco do Brasil, a pretexto de garantir o direito de saque de um detentor de duas contas com esse valor.

Todo o desenrolar do processo, submetido ao CNJ pelo banco, foi suficiente para que a corregedora nacional de justiça suspendesse os efeitos da sentença antes que viesse a se consumar o maior golpe individual já praticado contra o principal banco do país. Para fundamentar a intervenção no ato jurisdicional monocrático (ou seja, de competência individual), a ministra Eliana Calmon argumentou que a decisão extravasara “as raias da normalidade e se configurou como manifesta ilegalidade, ferindo o código de ética da magistratura”. Logo, a juíza se tornou suscetível de censura disciplinar, o que é atribuição do conselho.

A interpretação é elástica demais para caber numa leitura estrita das normas do CNJ e das regras do processo judicial, mas a corregedora não teve dúvida em extrapolar seus limites formais para alcançar um objetivo nobre: evitar o saque indevido de um valor fantástico, que seria feito com base em razões não só frágeis como inverossímeis.

Através de Juarez Correa dos Santos, que é seu representante legal, Francisco Nunes Pereira tentou primeiro aplicar o mesmo golpe na justiça do Distrito Federal. Logo ficou provada a falsidade dos documentos que apresentou como prova de que teria R$ 2,3 bilhões em duas contas pessoais no Banco do Brasil. O processo foi extinto sem consideração sequer pelo mérito.

No dia 4 de novembro a mesma ação (um insólito “usucapião especial constitucional”, desviado da busca pela confirmação da posse de uma área de terras para o domínio sobre contas bancárias, fórmula esperta, embora inusitada) foi proposta em Belém e distribuída para a 5ª vara cível. Quatro dias depois, numa tramitação de rapidez rara e surpreendente para o procedimento padrão nesse caso, a juíza Vera Araújo expediu um memorando para que o Banco do Brasil “se abstenha de realizar qualquer movimentação” no valor de R$ 2,3 bilhões, “que se encontra depositado em contas junto a este banco” em nome do autor da ação, “até ulterior decisão”. Fixou em R$ 2 mil ao dia a multa em caso de descumprimento.

A juíza não aceitou reconsiderar sua decisão quando procurada por representante do Banco do Brasil, que lhe apresentou laudos e a decisão da justiça do DF, comprovando a fraude. O porta-voz do banco argumentou ainda que o saque e a transferência dos recursos favoreceriam uma quadrilha interestadual especializada em golpes contra instituições financeiras. Com base na mesma exposição, a corregedora nacional de justiça determinou de imediato a suspensão da decisão.

Ao ser questionada pelo banco, segundo a nota que a assessoria de comunicação do CNJ distribuiu, “a juíza alegou que não encontrava os papéis relativos ao processo e que ‘sofreu pressões de cima’, sem esclarecer de quem e por que motivo”. O processo teria sido extraviado.

Sem conseguir demover a juíza, o banco recorreu da decisão para o tribunal. O agravo foi distribuído para a desembargadora Gleide Pereira de Moura, da 1ª Câmara Cível Isolada, mas ela jurou suspeição. Por sorteio, o processo foi, no dia 7, para a desembargadora Marneide Merabet, que, dois dias depois, indeferiu o pedido do banco para, através de liminar, suspender os efeitos da decisão de 1º grau, mantendo a deliberação da juíza Vera Araújo. Só então, no dia 13 a magistrada pediu informações à sua colega da instância inferior.

O que o banco questionou e a ministra Eliana Calmon acolheu foi um dos princípios da justiça, a prudência. Sem instruir o processo, sem ouvir a outra parte, por meio de liminar, numa tramitação velocíssima, tanto a juíza quanto a desembargadora criaram a possibilidade de um saque bilionário em pleno período de recesso forense, iniciado no dia 20. Com a ordem judicial, os R$ 2,3 bilhões poderiam ser sacados e sumir, “até ulterior deliberação”.

Há mais de três anos, quando a trama foi revelada, suspeita-se de que por trás dessa ação está uma quadrilha audaciosa, embora ainda não identificada. O personagem principal, Francisco Nunes Pereira, é um homem de 47 anos, desempregado há vários anos, que mora em Tatuí, no interior de São Paulo, com um padrão de vida que em nada faz supor seja detentor de tanto dinheiro, capaz de transformá-lo num dos 20 homens mais ricos do país. Ele seria o ardiloso criador da fraude ou apenas o “laranja” à frente dos verdadeiros autores.

O espantoso é que, passado tanto tempo, a possibilidade de um golpe com tal alcance não tenha motivado as autoridades públicas competentes a dedicar um pouco do seu escasso tempo para desvendar o mistério. Nem mesmo depois que a primeira ação foi extinta na justiça do Distrito Federal. Só agora as investigações serão iniciadas, com a remessa dos autos pela Corregedoria do CNJ para a Polícia Federal e o Ministério público Federal.

Se for provada a hipótese até agora mais provável, da tentativa de sacar ilicitamente um valor que equivale a 20% de todo o orçamento do Estado do Pará para o próximo ano, qual a participação dos magistrados paraenses na trama? Erro por ingenuidade ou conivência? Grave erro de ofício ou cumplicidade em algum tipo de fraude, com crime de peculato ou qualquer outro? Pela primeira vez um magistrado do Pará aparecerá diante do público algemado?

De qualquer forma, mais um escândalo nacional envolvendo a justiça do Pará. Só que, desta vez, o âmbito da apuração não será mais estadual, no qual as punições são brandas, quando são aplicadas. Desde a comprovação dos saques que a então juíza Ana Tereza Murrieta praticava nas contas judiciais sob sua guarda, os sucessivos casos de irregularidades e ilegalidades podiam ser tomados como alertas de uma tendência de agravamento. No entanto, a juíza foi promovida a desembargadora por merecimento. Quando aposentada, foi para casa com salário milionário. E mesmo condenada, continua solta, recorrendo em liberdade.

O CNJ já aposentou compulsoriamente a juíza Clarice Andrade, responsabilizando-a pela permanência de uma menor em cárcere coletivo de homens, onde foi submetida a violências. Já a juíza Maria Edwiges de Miranda Lobato, que, no ano passado, mandou soltar um perigoso traficante de drogas dois dias depois que outro juiz, Eric Peixoto, negou a liberdade do réu, preso pela polícia depois de longas diligências, recebeu apenas censura por escrito. O processo contra a juíza criminal Sarah Castelo Branco, que foi ao presídio soltar um preso, também avança por gravidade, se avança.

Sob questionamento de colegas, a titular da 16ª vara penal de Belém, especializada em crimes de imprensa, pediu contagem de tempo e foi apresentada no topo das mais antigas magistradas, ao lado justamente de Vera Araújo de Souza. Não se sabe se para pedir aposentadoria ou tentar subir ao desembargo, seguindo o exemplo da colega Tereza Murrieta.


Mesmo com salários atrasados, médicos não entram em greve

Do Blog do Paju

Em uma reunião com a Pró Saúde, corpo clínico decidiu não paralisar nenhum serviço e aguardar até o dia 27 de dezembro o pagamento de 50% do salário atrasado.

Os médicos do Hospital Regional do Baixo Amazonas do Pará – Dr. Waldemar Penna deveriam receber o salário do mês de novembro até o dia 5 de dezembro. Porém, o corpo clínico normalmente precisa aguardar até o dia 20 de cada mês para receber. Isto faz parte da rotina dos médicos, pois, este prazo dado por eles sempre é utilizado pela direção do hospital para efetuar o pagamento, ou seja, os salários sempre são pagos com atraso.
Porém, no mês de dezembro o prazo máximo para o pagamento não foi respeitado, o que resultou numa ameaça de greve da categoria que atende no Hospital Regional (HR). 

Incomodados, mas ao mesmo tempo preocupados com a saúde da população, os médicos decidiram em uma reunião com a Pró Saúde, no dia 22 de dezembro não concretizar a greve.  Então, ficou acertado que até o dia 27 de dezembro seria efetuado 50% do pagamento, ficando o restante para o dia 10 de janeiro.  Caso isso não ocorra, os médicos devem entrar em greve.

                     Para informar a população sobre a real situação, os médicos fixaram cartazes na frente do HR.

Origem do problema

O Tesouro Nacional normalmente repassa os recursos da saúde pública para o Ministério da Saúde até o dia 2 de cada mês. Em dezembro, uma matéria divulgada aqui no blog do Paju (leia completa) deu conta de que até o dia 13 o pagamento ainda não havia sido efetuado.  O fato ocasionou o atraso no pagamento dos médicos dos Estados.