É do encontro das águas e das culturas indígena e portuguesa que se construiu Santarém. A cidade, a 807 Km de Belém, assiste de camarote ao choque do rio Tapajós e Amazonas. Verde de um lado e marrom do outro, as águas correm em paralelo, não se misturam e formam um espetáculo natural incrível, visto de qualquer ponto da margem da cidade.

De um lado, o escuro rio Tapajós, do outro, o barrento rio Amazonas
Mas nada como olhar tudo isso bem de perto. No Porto de Santarém ficam ancoradas pequenas embarcações disponíveis ao turista – não precisa nem agendar um horário. Em 10 minutos chegamos ao encontro e percorrendo essa linha, ainda encontramos os botos saltando por ali.

Quanto mais perto melhor!
As marcar portuguesas estão espalhadas pelos sobrados coloniais, com azulejos como revestimento externo. A fé do povo está retratada no filme “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, de Beto Brant – adaptação da obra homônima de Marçal Aquino, gravado ali e em Altamira – previsto para estrear dia 20 de abril.
ARTE VIVA
Santarém é geralmente o ponto de passagem para quem quer chegar até Alter do Chão. Por isso, um ou dois dias na cidade podem ser suficientes. Durante esta estada, além de tomar os sorvetes das frutas paraenses (bacuri foi o meu preferido!), vale reservar algumas horas para ir ao Centro Cultural João Fona. Sentado de frente para o encontro das águas, “Seu” Laurimar Leal é o guardião do acervo que tem como objetivo preservar a história da cidade, além de ter quadros do italiano Domenico de Angellis — que pintou a Catedral da Sé em Belém — como o retrato de D. Pedro II, em 1882. Apesar da figura frágil, cego há seis anos, o senhor com bengala na mão tem fôlego e história para contar.
Laurimar Leal tem curso de restauro no Louvre
As obras em escultura de Laurimar estão espalhadas por toda Santarém, como as peças nas Praça São Sebastião e Praça da Liberdade. Pintor e artesão, ele trabalhou com temas da natureza e foi retratista de todos os prefeitos da cidade. Os retratos dividem espaço com peças originais de escravos que pertenceram à sua família e cerâmicas arqueológicas tapajônicas.
Quando menino se formou em um seminário, é tenor lírico e tem curso de restauro feito no Louvre, em Paris, fala inglês e francês. “Nos anos 90, um barco passou por aqui e muitas pessoas desceram para visitar a cidade. Eu estava com uma exposição embaixo das mangueiras, aqui na praça ao lado do museu. Tinham uns franceses no grupo que gostaram do meu trabalho e depois de alguns meses chegou o convite. Fiz cursos no Louvre, fui para Bélgica, Suíça…”, explica.
Quando retornou ao Brasil, ele restaurou o prédio onde agora está este centro cultural. Da formação religiosa, Laurimar guarda a humildade. “Nunca liguei para dinheiro, por isso hoje levo uma vida simples”, conta relembrando o tempo em que ganhava do município apenas o material para criar e nada mais. “Meu trabalho é brigar pelas nossas origens, para preservar a nossa história. Com os europeus, aprendi que seu conhecimento só é válido se repassado para alguém e é isso que tentei fazer dando cursos e oficinas”.
Para Laurimar, com 72 anos, a força da arte paraense está no contato com o místico, com as lendas e crenças da região. “O artesão trabalha com as mãos de operário e a mente de artesão. O artista com as mãos do operário, a mente do artesão e o sentimento de artista”, reflete.
O documentário “Laurimar e Outras Lendas”, dos cineastas Miguel Ângelo, Bob Barbosa e Chico Caprário detalha a vida do homem mais famoso de Santarém!
Veja um trecho: