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sexta-feira, 1 de junho de 2012
Santarém recebe Caravana Pro Paz Cidadania
Agência Pará.
Fotos: Silvia Vieira(O Estado do Tapajós)
| Emissão de documentos |
A população do município de Santarém, no Baixo Amazonas, recebeu na
manhã desta sexta-feira, 1º, a Caravana Pro Paz Cidadania Presença Viva,
que percorre os municípios da região levando uma série de ações e
serviços gratuitos. As equipes do governo já passaram pelos municípios
de Almeirim, Prainha, Monte Alegre e Alenquer, beneficiando a população
com mais de 200 mil procedimentos na área de saúde e cidadania. Em
Santarém, quarta cidade a ser visitada nesta etapa do programa, a meta é
realizar 1.280 consultas por dia, além dos atendimentos que garantem a
emissão de carteira profissional, carteira de identidade, certidão de
nascimento, orientação jurídica, atividades culturais e oficinas
voltadas à população.
Em Santarém, o reforçada às ações de cidadania serão reforçadas, já que
um diagnóstico feito pelo governo constatou a existência de uma demanda
reprimida nessa área, especialmente no que concerne à emissão de
carteiras de trabalho e de identidade. "Reforçamos nossa equipe e nosso
material para atender esta procura. Aqui em Santarém emitiremos duas mil
carteiras de trabalho, sendo 500 por dia”, afirmou o coordenador da
Caravana Pro Paz, Jorge Bittencourt.
Larissa Marcioliver, 17, chegou cedo à Caravana para garantir sua
carteira profissional e ficou satisfeita. “Dá ultima vez que fui tirar
minha carteira demorou bastante, é que aqui em Santarém são emitidas
somente 40 senhas por dia. Às vezes passamos a noite na fila e a senha
não chega para todo mundo. Hoje foi bem mais rápido e mais fácil, estou
bem satisfeita. Agora vou correr em busca do emprego, pois carteira eu
já tenho”, descontraiu a jovem.
Saúde
| Serviço oftalmológico |
Por meio da Caravana, a população garante atendimentos médicos nas
especialidades de Cardiologia, Ginecologia, Pediatria, Odontologia,
Clínica Geral e Oftalmologia, o serviço mais procurado em todos os
municípios do Baixo Amazonas. “A meta do programa é realizar, durante os
quatro dias em Santarém, 1.600 consultas oftalmológicas, 1.200 em
Cínica Geral, 720 em Ginecologia, 640 em Pediatria, 400 em Cardiologia e
360 em Odontologia. As senhas são distribuídas a partir das seis da
manhã. Nossas atividades terminam quando atendemos o último paciente”,
destacou a diretora da Rede de Assistências Regionais da Saúde (DDRAR),
Rita Facundo, da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).
Expansão
O coordenador da Caravana, Jorge Bittencourt, anunciou ainda que o
governador autorizou a aquisição de mais três carretas, além das oito
que já existem. O objetivo é reforçar e expandir os serviços à
população. A novidade fica por conta dos atendimentos em especialidades,
como é o caso da saúde da mulher, que terá uma carreta destinada
exclusivamente para esse fim, estruturada para oferecer exames de Raio
X, ultrassonografia e mamografia.
A Caravana Pro Paz permanecerá no município até a próxima
segunda-feira, 4, disponibilizando mais de 50 serviços diferentes. Os
interessados devem procurar a sede do Sesi, localizado na Rodovia
Curuá-una, no período de 8 as 17 horas. As senhas para os atendimentos
de saúde são distribuídas a partir das 6 da manhã e os atendimentos
começam às 8h. Para adquirir a carteira de trabalho é necessário
apresentar o Registro Geral (Identidade). Já para a emissão da carteira
de identidade é preciso apresentar a certidão de nascimento e para as
pessoas casadas, a certidão de casamento.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
MP ajuíza ação de improbidade contra ex-governadora Ana Júlia e ex-dirigentes da Cosanpa
O Ministério Público do Estado, por meio da Promotoria de Justiça de
Direitos Constitucionais Fundamentais, Defesa do Patrimônio Público e da
Moralidade Administrativa de Belém ingressou esta semana com uma Ação
Civil Pública (ACP) por ato de improbidade administrativa contra a
ex-governadora do estado, Ana Júlia Carepa, o economista José Carlos dos
Santos Damasceno, os dois ex-presidentes da Companhia de Saneamento do
Pará (Cosanpa), Edilson Rodrigues de Sousa e Sérgio Roberto Rodrigues de
La Roque, o ex-diretor financeiro, Maurício Otávio de Almeida, e a
ex-chefe da unidade de gestão financeira, Maria Leonor Pereira Barros,
os dois últimos também da Cosanpa.
A ação foi distribuída para a juíza
Cynthia Beatriz Zanlochi Vieira, da 3a Vara da Fazenda Pública de Belém.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
A soberba e o rancor de Lula
Rede Democratas
- O verdadeiro teor da conversa entre o ex-presidente Lula e o ministro
do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes jamais será
completamente conhecido. Ficará a palavra de um contra a de outro.
-
Porém, independentemente do que ocorreu, o ex-presidente Lula tem vindo
de uma escalada de desrespeito institucional desde há muito tempo. E,
pior, sempre insuflado por militantes, simpatizantes e mesmo jornalistas
pagos por verbas de empresas estatais.
-
É possível, portanto, demonstrar que é perfeitamente factível o relato
de Gilmar Mendes segundo o qual Lula estaria disposto a fazer chantagens
para que o julgamento do mensalão seja adiado. Pior, que esteja
ajudando "bandidos" a divulgar informações falsas e caluniosas
sobre autoridades públicas.
-
Para começar, desde que abandonou o governo, Lula anunciou publicamente
qual seria sua meta: “acabar com a farsa do mensalão”.
-
Ora, para transformar em “farsa” uma série de eventos investigados pela
Polícia Federal, fartamente documentados pela imprensa, denunciados
pelo Ministério Público, e prestes a serem julgados pelo Supremo, é
preciso estar disposto a tudo.
- “Lula
não está fora de si. Está, isto sim, cada vez mais senhor de si.
Investido no figurino do personagem autorizado a desrespeitar tudo e
todos no cumprimento de suas vontades”, afirmou a colunista do Estado de S. Paulo, Dora Kramer.
- Continua a colunista: “E
por que (Lula) o faz? Porque sente que pode. E pode mesmo porque deixam
que faça. A exacerbação desse rude atrevimento é fruto de criação
coletiva e não surgiu da noite para o dia. A obra vem sendo construída
gradativamente no terreno da permissividade geral onde se assentam
fatores diversos e interesses múltiplos, cuja conjugação conferiu a Lula
o diploma de inimputável no qual ele se encontra em pleno usufruto”.
- Não deixe de ler a coluna: http://migre.me/9hegd
-
O próprio local onde o suposto encontro entre Lula e Gilmar Mendes
ocorreu pode despertar suspeita: no escritório de advocacia do
ex-ministro Nelson Jobim. No gabinete do integrante do STF, por exemplo,
seria mais condizente se a reunião com os cargos que todos ocupam ou
ocupavam e o assunto que estava em questão.
-
É preciso registrar que Gilmar Mendes já reiterou sua versão do
encontro com Lula. E foi além, disse que as acusações contra ele
produzidas por criminosos. “Vamos deixar claro: estamos lidando com bandidos que ficam plantando essas informações", afirmou o ministro.
- Na Folha online: http://migre.me/9hxL1
- Já o ex-presidente se manifestou apenas dois dias após a divulgação dos fatos e por meio de uma nota.
-
A tentativa de esclarecimento relativamente lacônica de Lula se mostrou
apenas como uma pausa em uma soberba crescente de quem passou a
acreditar em mitos que lhe eram atribuídos por bajuladores como: “o
maior brasileiro já nascido nessas terras”, “o homem que finalmente
governou para os pobres após 500 anos de exploração de uma elite
predatória”, entre outras estultices.
-
Nesse ínterim, Lula também passou a desancar adversários políticos,
tratá-los como inimigos a serem extirpados. Passou a agir sem limites.
Um dos alvos de Lula, que fique claro, sempre foi o Democratas, que
nunca baixou a cabeça para as bravatas do ex-presidente.
-
De acordo com o respeitado jornalista Fábio Pannunzio, o próprio Lula,
por incrível que pareça, foi responsável pelo vazamento do encontro com
Gilmar Mendes.
- Confira: http://migre.me/9htWy
- O evento com Gilmar Mendes pode ser um teto nessa trajetória aparentemente sem limites de um ex-presidente.
- O decano do STF, ministro Celso de Mello, deu o tom da gravidade da suposta ação de Lula. “Se
ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível
de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que
um chefe de poder tenta interferir em outro”.
- Leia mais no site Consultor Jurídico: http://migre.me/9hgcU
-
Em meio a tanta obscuridade, a oposição fez o que se esperava dela.
DEM, PSDB, PPS e PSOL entraram com uma representação criminal contra o
ex-presidente na Procuradoria Geral da República. Lula pode ter
praticado no mínimo três crimes: corrupção ativa, tráfico de influência e
coação.
-
O irônico nisso tudo é que Lula, movido pelo rancor, esteve por trás da
CPI do contraventor Carlinhos Cachoeira para tentar triturar seus
inimigos políticos. Não deu certo. Talvez por seus excessos, se vê agora no olho do furacão.
Lúcio Flávio Pinto receberá Prêmio Herzog em outubro
Conforme antecipou, ontem, o twitter do Blog do Estado, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal e articulista do jornal O Estado do Tapajós e do Blog do Estado, foi agraciado com o Prêmio Especial Vladimir Herzog 12.
Abaixo, a comunicação da concessão da honraria ao jornalista:
São Paulo, 28 de maio de
2012
Prezado jornalista
Lúcio Flávio Pinto
É com grande alegria que
levamos a seu conhecimento a notícia de que seu nome foi escolhido para receber
o “Prêmio Vladimir Herzog Especial 2012”. Este ano, excepcionalmente, haverá
dois premiados nessa categoria. Ao seu lado, será laureado o jornalista Alberto
Dines, quesabemos admirador de seu trabalho.
A escolha de seu nome
foi unânime entre os componentes da Comissão Organizadora do Prêmio Vladimir
Herzog. Sua trajetória corajosa e trabalho exemplar à frente do Jornal Pessoal
são motivo de orgulho para todos os jornalistas brasileiros.
As entidades
representadas na Comissão Organizadora acompanham com preocupação as pressões
que se opõem ao seu trabalho jornalístico. Causa consternação que, 24 anos
depois de promulgada a Constituição Federal de 1988, esse tipo de cerceamento
ainda medre no país.
Sabemos que seu trabalho
à frente do Jornal Pessoal combate justamente esse Brasil atrasado e
autoritário. É exemplar o seu esforço para manter uma publicação independente
que contraria interesses hegemônicos.
É com a expectativa de
seu aceite que, desde já, esperamos tê-lo conosco na cerimônia de premiação, no
próximo dia 23 de outubro, terça-feira, às 19h30, no Teatro da Universidade
Católica - TUCA (Rua Monte Alegre, 1024, São Paulo).
Obrigado, Lúcio Flávio
Pinto, pelo exemplo e pela motivação que sua atuação transmite à nossa
sociedade. Receba, por meio desta carta, o nosso reconhecimento, nosso apoio e
nossa gratidão.
Subscrevemo-nos,
honrados.
Atenciosamente
Ana Luisa Zaniboni Gomes
Curadora da 34ª edição,
em nome da Comissão Organizadora
Associação Brasileira de
Jornalismo Investigativo ‐ ABRAJI
Associação Brasileira de
Imprensa – Representação em São Paulo – ABI/SP
Centro de Informação das
Nações Unidas no Brasil – UNIC Rio
Comissão Justiça e Paz da
Arquidiocese de São Paulo
Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP
Federação Nacional dos
Jornalistas ‐ FENAJ
Fórum dos Ex‐Presos e
Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo
Instituto Vladimir Herzog
Ordem dos Advogados do
Brasil ‐ Seção São Paulo – OAB/SP
Ouvidoria da Polícia do
Estado de São Paulo
Sindicato dos Jornalistas
Profissionais no Estado de São Paulo
segunda-feira, 28 de maio de 2012
As contas escondidas da Vale
by Lúcio Flávio Pinto
Foi em 2005 que a Vale imprimiu seu último balanço anual em papel. A partir do ano seguinte só o seu relatório de sustentabilidade teria versão em papel . Nunca mais as demonstrações contábeis e financeiras. Elas ainda podem ser consultadas, mas apenas na versão eletrônica, no site da empresa. Mesmo assim, a forma mais difundida do relatório não é mais anual: limita-se a períodos trimestrais.
Quem quiser ter uma visão integral detalhada do desempenho da empresa vai ter que agregar os números por iniciativa própria, o que demanda mais tempo, paciência e competência específica.
Em compensação, a cada trimestre – ou a cada momento importante das atividades da companhia – são abundantes os press-releases que a empresa envia aos jornalistas. Tão detalhistas que quase contêm a verdade. Quase.
Sempre há um detalhe, em geral inconveniente, que não é contemplado nesse feerico material de divulgação. Para obtê-lo, porém, o profissional da informação terá que gastar muito mais trabalho. Por que não se contentar com o belo prato feito?
Um número crescente de jornalistas faz essa opção, até se esforçando por esticar ao máximo o rendimento em cima dos dados fornecidos pela Vale. Devem ter a sensação de poder surpreender a autora da gentileza e serem fiéis ao compromisso com o leitor, mas é difícil.
O enredo parece perfeito. Consciente da sua responsabilidade social, a empresa se dispõe a um strip-tease informativo, fornecendo tudo que é relevante para uma análise séria e honesta do seu desempenho, monitorado pelo mercado através das bolsas de valores, principalmente a de Nova York.
Tão desprendida ela se revela nessa disposição que torna perfeitamente dispensável a apuração à margem ou além dos alentados pacotes que despacha para a mídia. Acompanhados, é claro, de farta publicidade para o topo das empresas jornalísticas. Publicidade inteiramente dispensável para uma corporação que negocia contratos de longo prazo, e de alto valor, com seus clientes - que são poucos.
Muitos jornalistas e analistas em geral devem reagir positivamente aos relatórios de sustentabilidade da Vale. Neles, a empresa demonstra o grau e a extensão do exercício das responsabilidades que lhe cabem em relação à sociedade e à natureza. Os relatos são abundantes e as imagens, sempre de impressionar, são numerosas. A mineradora faz jus ao crédito: está procurando um relacionamento franco com a opinião pública, convicta de que o seu modo de proceder é sua melhor defesa.
Quando a Vale deixou de publicar em papel o seu balanço anual, que sempre incluía as demonstrações contábeis e financeiras em toda a sua extensão, fiz chegar minha estranheza e, em seguida, meu protesto a quem interessava, os ditos canais competentes.
Não se tratava apenas de uma impensada e automática adesão da corporação ao meio eletrônico, como tem acontecido com frequência preocupante no mundo dos negócios e no âmbito público.
Afinal, o relatório de sustentabilidade continuou a ser impresso, com os recursos gráficos sofisticados de antes. Além disso, o verdadeiro balanço contábil também deixou de ter até no site da companhia o destaque dado aos relatórios trimestrais. Para completar, press-releases cada vez mais fartos, como se contivessem todas as demonstrações e as tornassem dispensáveis.
Minha resistência a aceitar essa nova realidade era apenas sinal de caduquice e teimosia, de iconoclastia irracional, de desajuste ao novo tempo tecnológico? O leitor poderá comparar as análises que eaqui e no meu Jornal Pessoal - se faz das atividades da Vale com o que sai não num ou noutro jornal, mas em toda a mídia nacional. Se concluir que o que aqui sai nada tem de diferente dos demais meios de comunicação (não estou falando em interpretação, mas em dados brutos mesmo), então é verdade: não passo de um criador de caso.
No entanto, desde que a censura política se restabeleceu no Brasil, depois do AI-5, no final de 1968, ao buscar informações significativas e de confiança num ambiente empobrecido, acabei descobrindo que os balanços das empresas (como os orçamentos dos governos, estes com menor grau de segurança e credibilidade) são fontes indispensáveis sobre o que vai pelo mundo, conforme anunciavam aqueles noticiosos exibidos nos cinemas até meados da década de 60 do século passado.
Quando comecei a consultá-los, os balanços ainda eram muito suscetíveis a manipulações e maquiagens. Com o passar dos anos, graças à melhoria na legislação e ao melhor controle da Comissão de Valores Mobiliários, as demonstrações foram espelhando mais adequadamente a realidade das empresas. Mesmo algumas manobras ainda cometidas podem ser identificadas e revertidas, de tal maneira que boa parte delas perdeu eficácia (não de todo, como se pode verificar em algumas descobertas de fraudes feitas, infelizmente, só a posteriori dos danos que causaram).
Em tal contexto, é inaceitável que a maior empresa privada do Brasil e do continente, uma das mais disputadas e valorizadas na bolsa de valores, não procure dar a maior difusão possível às suas contas. Pelo contrário: segue em sentido inverso ao que seria de se esperar se aplicasse os compromissos – que diz pôr em prática no balanço social – às suas demonstrações contábeis e financeiras.
Os jornalistas conscienciosos e sérios deviam se interessar pela questão e cobrar da Vale a publicação do seu balanço anual, na íntegra, em papel, com o uso da melhor forma de apresentação possível para facilitar sua compreensão.
Só assim – e não com ricos press-releases – ela cumprirá sua responsabilidade social. Permitirá que os verdadeiros analistas se debrucem sobre suas contas sem viseiras nem pretextos outros que desviem sua atenção do compromisso maior: com a opinião pública e não com a empresa, qualquer que ela seja. Mesmo a mais reluzente de todas.
Lula avança o sinal vermelho do mensalão
Rede Democratas
A simples descrição do episódio já abarca o despropósito
incomensurável: o ex-presidente Lula teria pedido ao ministro do Supremo
Tribunal Federal, Gilmar Mendes, para que o julgamento do mensalão
fosse adiado.
Lula teria oferecido a Gilmar Mendes “proteção” nas investigações da
CPI de Carlinhos Cachoeira em troca do atraso do julgamento, previsto
para este ano.
A descoberta foi da revista, Veja. Confira: http://migre.me/9fxpq
Após dizer que controlava a CPI, Lula, segundo a reportagem, avisou a
Mendes que sabia de uma viagem do ministro do Supremo a Berlim,
juntamente com o senador Demóstenes Torres, e pago por Cachoeira. Não há outras palavras para descrever o que ocorreu: chantagem.
O encontro teria ocorrido dia 26 de abril no escritório de advocacia do
ex-ministro da Defesa de Lula e também ex-integrante do STF, Nelson
Jobim, em Brasília. O ex-ministro da Defesa negou que esse tenha sido o
teor do encontro, que de fato ocorreu.
Antes
da publicação da reportagem, Gilmar Mendes relatou o encontro a
parlamentares e outras autoridades, como o procurador-geral da União,
Roberto Gurgel.
A assessoria do ex-presidente negou a história. Porém, questionado pela
imprensa, Gilmar Mendes confirmou a investida de Lula.
Outros
ministros do Supremo também teriam sido procurados pelo ex-presidente
da República, com o mesmo intuito nada Republicano. Outros encontros
estão previstos na agenda do prócere petista. No escritório de Jobim,
Lula teria criticado de maneira veemente os juízes que não estariam
abaixando a cabeça para seu plano.
Ficou, portanto, a palavra de ex-presidente da República contra a de um
ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. No mínimo uma crise
institucional.
Segundo a reportagem jornalística, na argumentação de Lula, o
julgamento do mensalão este ano influenciaria o processo eleitoral. Além
disso, teria dito, em 2013, ministros propensos a condenar os
mensaleiros, como Cezar Peluso e o atual presidente Ayres Britto, já
estariam aposentados.
Na visão parcial e interessada do ex-presidente Lula, o mensalão foi
uma farsa conduzida pelas elites brasileiras, com o interesse de
derrubá-lo do poder, mas que não teria ido à frente devido à
movimentação dos movimentos sociais.
A versão de Lula é uma enorme negação a uma quantidade enorme de fatos e
mesmo uma ofensa a uma série de autoridades da República que
trabalharam com afinco na elucidação do escândalo que ficou conhecido
como mensalão, entre eles o ex-procurador Geral da República, Antonio
Fernando de Souza, e de delegados da Polícia Federal.
A versão de Lula também ignora que há provas periciais demonstrando que dinheiro público foi usado nas operações ilegais e alguns réus confessaram os crimes.
Além disso, a maioria dos personagens do caso está por aí, como o
empresário Marcus Valério e o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares,
novamente acolhido pelo partido.
Há também os empréstimos do PT junto a instituições como o BMG e o
Banco Rural e repasses de dinheiro vivo a deputados em um shopping de
Brasília, entre outras ações ofensivas.
Os
empréstimos do PT, de R$ 50 milhões, foram quitados ano passado, em um
ajuste de conta ainda não muito bem explicado. Empresários com contatos
do governo ajudaram a pagar a fatura:
É ainda preciso deixar claro que os tais movimentos sociais aos quais
Lula se refere são grupos controlados pelo governo por meio de somas
vultuosas, como a antes independente União Nacional dos Estudantes
(UNE).
E, em nenhum momento, mesmo durante o auge da crise do mensalão, a
palavra “golpe” ressoou. Os integrantes da oposição se abstiveram de
pedir o impeachment de Lula mesmo que ainda hoje alguns juristas
considerem que havia elementos para essa ação dentro da democracia.
Por último, apesar de hoje dizer que não houve mensalão, à época Lula pediu desculpas à sociedade pelo ocorrido. “Eu
não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos
que pedir desculpas", afirmou, em 2005, conforme lembrou o editorial do Estado de São Paulo denominado Prisioneiro do Ressentimento.
Leia: http://migre.me/9fwvD
Uma suposta chantagem contra os ministros do Supremo seria o capítulo
final da verdadeira farsa que é armar a versão de que o mensalão foi uma
farsa.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal já afirmaram que não irão se
submeter a pressões. É isso que o Brasil quer. A lei cumprida e os
envolvidos punidos.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Capa da edição desta semana de O Estado do Tapajós
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Capa do encarte que circula por ocasião do
V Salão do Livro do Baixo Amazonas
Bradesco, o personagem oculto
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Lúcio Flávio Pinto
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O
Bradesco, na época o maior banco privado do Brasil (depois foi superado
pelo Itaú, dos Setubal; mas ainda é dos maiores do mundo) não podia
participar do leilão do controle acionário da Vale, em maio de 1997. O
Estatuto das Licitações, ainda em vigor, proibia que o avaliador
participasse, direta ou indiretamente, da licitação (em que modalidade
fosse: concorrência, tomada de preço, convite, ou leilão).
O Bradesco, integrou o consórcio de avaliação do acervo da Vale, sob a liderança de fato da Merril Lynch, sponsor broker
(agente) da Anglo American, na África do Sul. Por isso e também porque
detinha mais de 17% do capital da CSN, a Companhia Siderúrgica Nacional
(igualmente vendida. seis anos antes), nem o Bradesco nem a CSN
poderiam participar do leilão da Vale. A Lei 8.666/93 reputa ilegal
qualquer participação igual ou acima de 5% do capital,
Foi
montada uma “complexa engenharia financeira”, aprovada pelo BNDES, para
o Bradesco financiar debêntures conversíveis em ações da Vale, emitidas
pela Eletron e o Sweet River Fund (ambos de propriedade de
Daniel Dantas, do Opportunity), com prazo de um ano. Como tais
debêntures não foram resgatadas, o Bradesco pôde se apresentar como
acionista controlador da Vale.
Para
consolidar o arranjo, o Bradesco promoveu uma “cisão” do seu capital,
no primeiro trimestre de 2000, e constituiu a Bradespar, cujo capital
inicial foram as ações de controle do Bradesco na Light, na CSN e na
Vale. Conseguiu assim utilizar a participação na Vale como capital da
nova entidade (Bradespar), o que confirmaria a ilicitude da presença do
Bradesco no leilão de três anos antes.
Para
uma cisão regular ser admitida, é necessário, além da auditoria
contábil, uma auditoria jurídica, sob a responsabilidade de um
escritório de advocacia idôneo, sem compromissos com a empresa promotora
da cisão. Esse escritório, no caso Bradesco/Bradespar, foi o
Carvalhosa e Eizirik Advogados, que deveria responder a um questionário
elaborado pela promotora da cisão.
O
advogado Eloá Cruz, que patrocina numerosas ações populares contra a
desestatização da Vale, observa que, como o Bradesco nada indagou sobre a
influência do contencioso gerado pelas ações judiciais contra a
alienação da estatal, o escritório de advocacia podia alegar que não
esclareceu esse ponto.
Isto
porque não lhe perguntaram, nem o Bradesco e – mais grave –muito menos
a Comissão de Valores Mobiliários. Tanto as informações quanto as
omissões, contudo, podiam ser confirmadas por qualquer pessoa no balcão
da CVM, no Rio de Janeiro.
Além
das manobras jurídicas, um fato concreto indicava o papel desempenhado
pelo Bradesco na nova sociedade: a presença de Roger Agnelli, que fez
carreira na instituição, desde o posto mais humilde até o topo da
estrutura.
Além
de ocupar a presidência da Vale, Agnelli também era presidente do
Bradespar, o braço do Bradesco na mineradora; membro do Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), que assessora quem esteja no
cargo de Presidente da República do Brasil (fez sessões decorativas
diante de Lula e ainda não foi convocado uma única vez por Dilma);
membro do Conselho Internacional de Investimentos, que assessora o
Presidente da República da África do Sul, e intregrante do International Advisory Committee da New York Stock Exchange (NYSE), a Bolsa de Valores de Nova York.
A companhia estava, portanto, em mãos confiáveis. Continua, mais ou menos.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Lúcio Flávio Pinto lança seu novo livro em Santarém
A Construtora C. R. Almeida, com sede no Paraná, é a sexta maior empreiteira do Brasil. Seu dono, Cecílio do Rego Almeida, tentou ser também o maior proprietário rural. Não só do país: do mundo.
Ele chegou a se considerar dono de quase sete milhões de hectares de terras no
vale do rio Xingu, que constituiriam o 21º maior Estado brasileiro. Teria
consolidado esse domínio se não tivesse se defrontado com alguns representantes
da sociedade. Na defesa do patrimônio público, esses cidadãos enfrentaram o
poderoso empresário e conseguiram impedir que ele transferisse para o seu
nome terras que, na verdade, eram públicas.
Para que esse resultado fosse alcançado foi preciso deslocar em 2002 o processo da justiça estadual, que sempre proferiu decisões favoráveis ao grileiro, para a justiça federal, que, no final de 2010, mandou cancelar os registros imobiliários fraudulentos lavrados no cartório de Altamira.
Mas para um dos personagens principais desse combate, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, o preço por esse desempenho foi ser condenado a indenizar o grileiro. Seu crime: chamar o grileiro de pirata fundiário. Parece surreal e absurdo, mas foi a decisão do Tribunal de Justiça do Estado. Em seu
livro, Grileiros mais juízes: ameaça às terras do Pará, editado em Santarém pela Editora O Estado do Tapajós, Lúcio narra essa saga inacreditável. Custa crer que ela tenha se desenvolvido diante dos sete milhões de paraenses sem provocar a reação devida e proporcionar as lições necessárias. A principal delas: é preciso ter consciência do que realmente acontece na Amazônia para poder defendê-la.
Talvez este livro consiga, por sua leitura atenta, estimular a atenção dos paraenses para o seu rico e ameaçado patrimônio. Enquanto é tempo.
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Serviço: dia 26 de maio de 2012
Local: Espaço Pérola do Tapajós. V Salão do Livro do Baixo-Amazonas.
Sessão de autógrafos: 19 horas( Estande do jornal O Estado do Tapajós)
Palestra: 17 horas( Escola Parque) Parque da Cidade.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Vale: Uma agenda em branco
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A transferência do controle
acionário da Companhia Vale do Rio Doce para a iniciativa privada foi um dos
principais capítulos do programa de desestatização da economia brasileira. A
redução dos ativos do patrimônio público foi iniciada com a redemocratização do
país, em 1985.
Era uma providência necessária
para ajustar o Brasil à ordem econômica mundial. Um dos seus mandamentos
sagrados era dar ao Estado um tamanho mínimo, apenas o suficiente para manter
os serviços públicos. O resto seria tarefa do mercado, através dos seus
mecanismos de autorregulação, eternos e fatais como as regras da natureza.
Os propósitos parecem ter
se realizado da melhor maneira possível. Desde 2001 a Bolsa de Valores de Nova
York, a maior do mundo, comemora o CVRDday (o “Dia da Vale”), saudado com
euforia pelos investidores e pensionistas norte-americanos. O sino do pregão é
sempre tocado pelo presidente da CVRD, que leva os seus convidados para a “Big
Apple”.
Na primeira comemoração houve até
discurso do então conselheiro da Petrobrás explicando as vantagens do processo
de “privatização” para adoção institucional no Brasil.
Não há dúvida que a mudança foi
boa para eles e para mais alguns. E para o Brasil? Ou, mais especificamente,
para o Pará, o segundo Estado na federação em que a Vale está mais presente,
dos 12 em que atua?
É espantoso e assustador que os
paraenses passem ao largo da data e do que ela representa. Embora a Vale
privada tenha completado 15 anos no dia 6, o assunto não entrou na agenda da
sociedade. A imprensa, acostumada a só participar de comemorações, patrocinadas
pela própria empresa, não aproveitou a oportunidade para fornecer à opinião
pública dados para uma avaliação do ato da venda e das suas consequências. O
rumo do Pará depende umbilicalmente do presente e do futuro da Vale.
Datas como a destes 15
anos nada significam se não forem a oportunidade para examinar os
acontecimentos de uma perspectiva histórica. A esta primeira data se segue
outra, a de 1º de junho, quando a Vale completará 70 anos de existência. Com o
auxílio do tempo, podemos ver o que antes não percebíamos e minimizar o que, na
época considerado importante, se revelou, pelo desgaste da vida, irrelevante,
poeira luminosa que fica para trás, desaparecendo. Ilusão ou fantasia. Miragem.
Não há dúvida que a Vale tem peso
muito maior hoje do que tinha em 6 de maio de 1997. Sua estrutura continua
a ser a de uma empresa do Estado. Os que a criaram, em 1942, durante a Segunda
Guerra Mundial, a conceberam não só como uma mineradora. Queriam que fosse uma
agência de desenvolvimento.
Devia desenvolver o vale onde
atuava, o do rio Doce (que ainda era então quase um paraíso natural), entre
Minas Gerais, onde estava a primeira mina que lavrou, e o Espírito Santo, local
do porto por onde passou a exportar, alcançado pela ferrovia que construiu
entre os dois pontos, a Vitória-Minas.
Sua estrutura de agência de
desenvolvimento persiste. Não há outra forma de definir uma organização que
dispõe de três grandes ferrovias, de dois portos privativos pelos quais
transita o maior volume de bens exportados pelo Brasil (e dos maiores do
mundo), de uma empresa de cabotagem e outra de navegação, das maiores minas do
país e do maior volume de concessões minerais em todo subsolo nacional.
Todo esse conjunto
logístico,operacional e produtivo tem como meta prioritária a drenagem de
recursos nacionais para o exterior. Não só para terceiros, mas para as empresas
que a própria Vale comprou e opera nos cinco continentes. Tornou-se, de fato, a
primeira multinacional (e a maior) brasileira.
Em 2006 realizou a maior operação
de aquisição feita até hoje por uma empresa latino-americana, ao pagar 18
bilhões de dólares para a Inco, a multinacional canadense que é a segunda maior
produtora de níquel do planeta e dona das maiores jazidas desse minério.
Um negócio que só se tornou
possível pelo fenomenal fluxo de caixa da companhia. Mas também pela elevação
do seu endividamento a um patamar preocupante, que agora começa a se revelar
ameaçador.
Além de haver se descentralizado
do Brasil para o exterior (é do Canadá que comanda suas operações de níquel,
que têm duas minas em Carajás, no Pará), a Vale se atrelou à China. Foi uma
aposta bem sucedida numa visão meramente empresarial. Mas tem o mesmo acerto do
ponto de vista de uma agência de desenvolvimento?
Com sua poderosa estrutura
logística, a Vale atou de uma forma perigosa o Brasil à vontade dos chineses,
sem um conhecimento satisfatório sobre o conteúdo dessa relação e seus
mecanismos de regulação. Hoje, 60% do minério de ferro (o de melhor qualidade
do mercado) de Carajás vão para a China. Com mais 20% para o Japão, 80% do filé
mineral ficam na Ásia. É um processo de transferência de minério sem paralelo
na história mundial.
Uma conjuntura excepcionalmente
favorecida pelos preços elevados das commodities pode se alterar de súbito.
Temos algum controle sobre o processo da formação dos preços? Quem estabelece a
escala da produção, que está duplicando, para incríveis 230 milhões de
toneladas, em 2015, a atual produção de Carajás?
Atraídos pelo canto da sereia dos
preços altos, um dado conjuntural, estamos renunciando a uma ferramenta
poderosa de futuro e, com ela, à possibilidade de agregar mais valor ao
processo produtivo?
É bom não esquecer que Carajás,
começando a produzir em 1984, devia durar 400 anos. A previsão sobre a vida
útil da jazida é atualmente inferior a 100 anos. Nessa escala, não vai apenas
ser usada no processo produtivo dos compradores: vai lhes servir de estoque e
reserva. Foi assim em relação ao primeiro minério de mercado internacional da
Amazônia, o manganês do Amapá, meio século atrás. Não evoluímos na matéria?
Não há dúvida que a venda da Vale
foi imposta goela adentro da sociedade pelo governo. E através de mecanismos de
força, esse fato consumado vem sendo mantido. As sete dezenas de ações
populares e outros mecanismos jurídicos que tramitam ainda hoje pelos
tribunais permanecem sem deslinde.
Os prejuízos alegados e os
direitos apresentados continuam fora do alcance dos cidadãos. Beneficiada pela
estrutura estatal que herdou, a um preço vil (3,3 bilhões de dólares), a
Vale privada não responde com o outro lado dessa herança, que são os
benefícios sociais e a adequação aos interesses nacionais. A Vale é boa para si
e os seus grandes clientes. Mas não – ao menos não na mesma medida – para
o Brasil.
Esta é a conclusão de demorados
estudos e aprofundadas análises empreendidas em cima de fatos
concretas. Uma controvérsia fecunda tem que ser estabelecida sobre essa base
factual, suscetível de ser demonstrada e positiva num debate aberto e franco,
que elimina meros juízos de valor e sentenças dogmáticas preestabelecidas.
É isto o que a data devia
proporcionar, a fim de que o povo brasileiro saiba o que tem em sua casa: um
inimigo ou um aliado. O ruim, como lembrou o itabirano Carlos Drummond de
Andrade num dos seus poemas, é quando o inimigo janta conosco. Com o agravante
de que, fornecedores do jantar, ficamos apenas com o resto do banquete.
Por esses motivos,, com todas as
limitações de tempo, decidi preparar um dossiê, de 44 páginas, que foi
hoje para as bancas de revistas e livrarias de Belém do Pará. Espero que o seu
conteúdo seja capaz de mostrar ao leitor que esse item não pode deixar de fazer
parte da sua agenda.
Atualizei a linguagem, mas
mantive intacta a argumentação de alguns artigos já publicados para dar uma
ideia da sequência dos fatos e da evolução da sua compreensão. Espero que tenha
havido evolução mesmo. Mas não parece.
sábado, 19 de maio de 2012
O turista da enchente
Por Lúcio Flávio Pinto
Fui testemunha das três maiores enchentes do rio Amazonas registradas
antes da atual, já considerada superior a todas as anteriores: em 1953,
1976 e 2009.
Ainda não fui ver com meus próprios olhos a retumbante cheia de 2012.
Mas vi uma cena que nunca presenciara nos muitos acompanhamentos que
fiz desse que é o maior fenômeno das águas doces do planeta: o turista
da enchente.
Um cinegrafista da TV Globo, que, finalmente, descobriu a pauta
(depois do Marajó e do Pará, por razões mercadológicas), captou a cena:
turistas num bote de alumínio indo ao local de medição da evolução das
águas no porto de Manaus.
Com seus coletes salva-vidas, em trajes de campanha e liderados por
um guia, eles batiam fotos da centenária régua instalada no local,
registravam nos seus celulares o cenário aquático e posavam eles
próprios para fotografias, empolgados e emocionados.
Pareciam participar de um safári. Não orientado para ver — e abater —
grandes animais, como na África e na Ásia. A nova modalidade é para
contemplar e sentir o colosso que é o maior rio do mundo, tufado como
nunca antes. Deve ter sido o grande assunto da excursão. Vai se estender
por muito tempo, provavelmente para sempre, em suas vidas.
Lembro-me, muitos anos atrás, quando Manaus começava a trilhar pelo
turismo ecológico, de um passeio de barco por igarapés nos arredores da
cidade. O momento culminante da jornada era numa ilha, dentro de um
labirinto, onde um grupo de índios executou uma dança ritual para
embasbacados visitantes, a maioria vinda do exterior.
À noite, firmei a vista e me certifiquei: um dos garçons, que atendia
no recém-inaugurado Hotel Tropical, dançara poucas horas antes, de
cocar e tanga. A caráter, era um perigoso guerreiro diante de bwanas agradecidos pela oportunidade de comprovar que Jean-Jacques Rousseau tinha razão quanto ao bom selvagem.
O exótico pode ser o estranho, a desviar a compreensão do que se vê.
Viu-se o fato sem entendê-lo. É muito comum em qualquer lugar do mundo
percorrido por turistas apressados — e agora, com sua tecnologia
instantânea, sempre mais superficiais.
Ainda assim, é positivo o surgimento desse novo tipo de turismo, que
leva as pessoas a ver a natureza em plena atividade. O integrante de
tais comitivas pode voltar ao ponto de origem carregado de emoções,
sensações e crenças, convencido de que valeu a pena pagar (e caro) por
essa oportunidade única. Pode até mesmo se tornar um apaixonado pela
Amazônia e seu divulgador por onde mais estiver.
Contudo, é essencial não esquecer que as águas desempenham um ciclo
na Amazônia, um ciclo esmagador, pelo volume movimentado durante esse
circuito de encher e vazar, o mais importante em uma região do tamanho
da Europa Ocidental ou dos Estados Unidos.
O turista, cheio de interjeições e exclamações, passa rápido. Quanto
mais deles aparecerem, melhor. É um tipo de visitante mais útil do que o
comprador de bugigangas da Zona Franca. Se apoiado e bem orientado,
verá a obra da natureza em pleno processo, ao invés de se restringir a
ter contato com a obra humana, frequentemente antípoda do meio ambiente.
Quem interessa, porém, é o nativo, aquele que fica. Mesmo que o rio
inche como nunca, obrigando-o a elevar o piso de suas casas até o
telhado, ou, quando a acomodação se torna impossível, a procurar outro
abrigo, deixando para trás todo seu patrimônio e levando consigo muitas
agruras, o habitante das margens dos rios tem outro tipo de reação
diante dessa realidade.
Sempre que conversei com o varzeiro sobre a grande cheia, sua
primeira reação era contrapor, à descrição da destruição provocada pelas
águas, uma frase ao mesmo tempo calma e forte: haverá fartura no ano
que vem.
Para o nativo, a água não é um acidente, um fenômeno em si. É
elemento de uma cadeia, ser vivo, dinâmico, criador. Se sobe demais, a
água inunda a faixa de terras mais próxima, onde pode estar uma fazenda,
um povoado ou cidades grandes, como Manaus e Santarém. Esta é a sua
face ruim, às vezes um flagelo.
Avançando sobre áreas nunca alcançadas até então, a cheia irá
fertilizá-las — o que raramente acontece ou mesmo pela primeira vez,
como agora. O Amazonas carrega no seu curso de autêntico mar sedimentos
ricos em nutrientes, arrastados desde os Andes. Atingindo altura muito
superior ao do seu nível normal, mesmo nas cheias de todo ano,
depositará esses elementos sobre o chão pobre da região. Depois que ele
desce, é ir lá e plantar. A messe será grande.
Claro: não é um ciclo apenas pacífico, bucólico, poético. Mas o
homem, muito mais hoje do que em qualquer época, pode prever, controlar
ou minorar a face destruidora do rio. Tem ao seu dispor satélites de
informação, meios de locomoção, tecnologia de construção, um arsenal de
recursos que existe, mas não está ao alcance do nativo, ainda entregue à
própria sorte e aos próprios meios, ao que ainda é passado nos
prospectos contemporâneos.
A faixa de terras banhada pelo rio fora do seu leito alcança 150 mil
quilômetros quadrados. Não parece muito. O falecido empresário Cecílio
do Rego Almeida dizia-se dono de quase metade dessa área no vale de um
dos afluentes do Amazonas, o Xingu. Seriam, se a grilagem tivesse dado
certo, 70 mil quilômetros quadrados para um homem só. Algo que violava
as leis dos homens e da natureza.
Com apenas o dobro dessa pretensão territorial, as várzeas, tendo seu
solo fertilizado todos os anos pelo grande semeador natural, o maior de
todos, o Amazonas, seria a terra mais rica do mundo. Capaz de produzir
alimentos para todos os brasileiros e, uma vez que os saciasse,
excedente exportável para muitos outros povos.
Não há um único empreendimento privado ou projeto público destinado a
essa finalidade. É um paradoxo incrível, absurdo. Mas não o bastante
para acabar com toda esperança, como advertia Dante à entrada do inferno
da Divina Comédia (deixai toda esperança, vós que entrais).
Já há o turista da enchente na Amazônia. Hélas!
PS — O programa de computador não inclui essa
expressão. O Aurélio não a define satisfatoriamente. A lexicografia
assemelha-se à Amazônia: uma região desconhecida ou mal entendida. Afe!
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