| Foto: Miguel Oliveira |
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Onde os rios levam vidas em percurso (Final)
Canoas, avistadas ao longe, se aproximam. Proliferam-se com rapidez. Mulheres remam para alcançar o navio. Junto delas, crianças. Num implorar amazônico, os curumins soltam gritos agudos e balançam os bracinhos como se fossem asas. Dá-se início a um ritual de solidariedade feito sem palavras. Passageiros e tripulantes arremessam sacos plásticos com roupas usadas. Os sacos caem no rio e logo vão para as mãos de novos donos. A velha roupa de uns, vira roupa nova para outros.
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| Ribeirinhos em busca de novas roupas velhas |
Prelúdio de mais uma noite. A animação, atiçada desde cedo pelas cervejas, aumenta ao pôr do sol. O tecnobrega, som originário da periferia de Belém, quase monopoliza o DVD do bar no passadiço. Os japoneses entram na farra; dançam e entornam latinhas ao lado dos brasileiros. Com as de sexta, Francisco Vieira contabiliza 30 cervejas esvaziadas por ele. É hora de parar. “Tem que chegar lá limpo. A patroa é meio braba comigo.”
Há muitos motivos que levam as pessoas a fazer de barco um percurso como este, de Santarém a Belém. Ir por terra é improvável. Não existe estrada que faça ligação direta entre as cidades. É preciso descer até a Rodovia Transamazônica e passar por Altamira e Tucuruí, o que além de ser desvio de caminho é baita dor de cabeça, considerando as péssimas condições da estrada.
Ir de avião é mais caro – às vezes, pouca coisa – e deixaria muitos que quase não saem da própria cidade com frio na espinha só de pensar em voar. A economia de tempo é grande: os dois dias na embarcação viram uma hora e 20 minutos de voo.
No navio é diferente. Os rios são extensões da casa dos moradores da região – embora haja quem fique apreensivo, como Jacina. Pode-se levar muito mais bagagem do que seria permitido por companhias aéreas. Francisco acrescenta uma justificativa: “Eu prefiro vir de barco porque a gente faz muita amizade. É uma economia e uma diversão. Melhor do que ficar sentado no avião sem falar com ninguém.”
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| Odirene da Silva e Rogério Soares |
Calados, eles entram no convés. Parecem ter saído do nada e se materializado nos fundos da embarcação. Rogério Soares e Odirene da Silva estão casados há nove meses. Vivem em comunidade perto de Breves, no Rio Tajapuru. Foram visitar a avó dele e, na volta para casa, conseguiram enganchar a canoa no Nélio Corrêa. Uma carona para diminuir o tempo gasto no caminho.
Os dois têm uma casa de madeira com fogão à lenha. Sem geladeira, sem televisor, sem rádio. Ainda não chegou luz elétrica por lá. Odirene, com 17 anos, senta no batente do navio que dá para o rio e apoia os pés descalços sobre a mesa da cozinha. Rogério mantém o braço esquerdo suspenso, seguro a uma trave de aço, enquanto fala da vida. Ele não sabe ler. Sobrevive da venda de açaí a três reais o litro.
“Qual é o teu sonho?” A pergunta que faço o paralisa. Rogério abre um sorriso largo, mas não responde. Fica pensativo. É como se, aos 22 anos, ele já tivesse desistido de sonhar. Ou nem isso: desistir é trunfo de quem, um dia, se permitiu olhar para além do presente. Mesmo diante da escuridão, eles sabem quando é hora de ir. Partem em silêncio, como chegaram. Talvez pensando nos sonhos que não têm.
De manhã, mais um pequeno barco encosta e é amarrado no navio. Pai, Raimundo dos Santos, e filho, Carlos Alberto, estão cercados por cadeiras feitas de cupiúba. Vieram vender a mercadoria, os preços variam de 15 a 30 reais. Um fica embaixo enquanto o outro se pendura no Nélio Corrêa para passar as cadeiras.
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| Raimundo e Carlos Alberto dos Santos |
Carlos Alberto faz o segundo ano do ensino médio. Quer ser engenheiro ou trabalhar com eletrônica. Veste camiseta vermelha e bermuda jeans de barra esgarçada. No rosto, a marca de um acidente de infância. Aos 11 anos, pegou a espingarda do tio. A arma estava carregada e, num descuido, disparou. A bala atingiu o olho direito do menino, sem chance de recuperação. Ele e o pai vão embora com cadeiras sobrando da venda de domingo.
Passa o Rio Pará. A entrada na Baía do Guajará é tranquila, sem sobressaltos. O fim da viagem se aproxima e os passageiros têm reclamações a fazer. José Edson de Oliveira, pintor, não gostou da alimentação nem do espaço apertado para dormir. As belas paisagens que circundam o navio por todo o percurso pouco aliviam os problemas. “Era para ser um paraíso, mas é um inferno.”
O comerciante Raimundo Costa também reclama da superlotação. Na primeira noite, dormiu pouco por conta do aperto. A Capitania dos Portos vistoriou o navio antes da saída de Santarém. Mas, segundo a tripulação, basta não ter redes atadas nas laterais para que a embarcação seja liberada. “Eles (tripulantes) pediram pra tirar as redes que tavam nos corredores pra Capitania achar que tava tudo normal. Tive que tirar a minha”, conta Raimundo.
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A chuva de sempre cai no desdobrar da tarde. Já se vê Belém surgir por trás de uma ponta de floresta. Para um homem da Amazônia urbana, como eu, é um novo modo de enxergar a cidade. Os passageiros desatam as redes, juntam a bagagem e, de barba feita e cabelos penteados, se prepararam para desembarcar. Fim do encontro traçado pelos rios. As vidas, que por dois dias dividiram o mesmo convés, agora seguem percurso separadas.
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| A bandeira nacional hasteada de ponta-cabeça |
A bandeira nacional continua a tremular na popa. De ponta-cabeça, como esteve durante toda a viagem. Por aqui, é assim: quem é da Amazônia vive num Brasil invertido, do avesso. Visto ora como exótico, ora como quintal, ora como intocável. Um Brasil dessa gente que constrói o país com discrição, sem reconhecimento ou recompensa. E continua a navegar.
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quinta-feira, 21 de abril de 2011
Onde os rios levam vidas em percurso
Guilherme Guerreiro Neto
(3a. parte )
A fila para o almoço é formada a partir das 11h30. Noventa quilos de carne, 22 de arroz, dez de feijão, oito de farinha e 24 pacotes de macarrão. Para servir tanta comida, o trabalho na cozinha começa cedo. Caxiado desperta antes das 3h da madrugada, chama Clauber, e os dois preparam logo o café da manhã. Em seguida, fazem o arroz e põem o feijão no fogo.
Caxiado é Denildo da Rocha. Ganhou o apelido no tempo em que os cabelos eram grandes e enrolados. Ele comanda o fogão industrial e a despensa do Nélio Corrêa. Mora em Manaus com a mulher e dois filhos. Quando está navegando, liga para a família sempre que o navio aporta.
Desta vez, nem precisou ligar. A mulher, Aldeni, o acompanha. Ela estava em Santarém para cuidar da mãe doente. Uma viagem juntos para compensar as ausências do marinheiro em casa. “Nunca me acostumei, mas como não tem opção pra ele trabalhar…” Caxiado e Aldeni se conheceram em 2001 num barco. Ele ofereceu a ela suco de caju e um olhar conquistador. Passaram três anos sem se ver. Quando se reencontraram, decidiram casar.
Morena, com luzes desgastadas nos cabelos, Aldeni é a sétima mulher de Caxiado. Sétima, em 43 anos de vida. Ele ameniza a fama. “Tenho só três filhos”, se defende. “Quatro. Ele já é até avô”, ela retruca. Caxiado mexe o indicador de um lado a outro e se entoca entre as panelas para fugir da conversa.
O ajudante de cozinha Clauber Roberto também já foi namorador. “Antes de conhecer a minha mulher eu tinha uma em Manaus e uma em Belém. Sou um homem direito agora”, esclarece antes de engolir uma colherada de arroz com feijão e ovo frito. Mas, segundo Clauber, não há em águas amazônicas quem barre Agostinho no quesito mulherengo.
Mesmo casado, Agostinho Jorge anda sem aliança. Diz que foi roubado. Não nega que tenha outras namoradas, embora evite o assunto. Com 69 anos, o mais velho tripulante é magro, com raros cabelos no cocuruto e de poucas palavras. Espera pelo dia em que finalmente ficará de vez em terra firme. Já está aposentado, só que ainda não conseguiu liberação da empresa para encerrar o ciclo de mais de 30 anos vivendo pelos rios.
Ficar na praça de máquinas é uma tormenta para os tímpanos. A escada íngreme dá acesso ao espaço estrondoso e quente. Há quatro motores e uma estante de ferramentas. O serviço de Agostinho é ali: opera o maquinário, troca óleo e fica alerta para identificar qualquer problema.
Faz 18 anos que o Nélio Corrêa, feito em aço naval, começou a navegar. Chamava-se Cidade de Teresina. Dois, três anos depois, quando foi comprado pela Marques Pinto Navegação, ganhou o nome atual. Homenagem ao irmão dos donos da empresa, que morreu, ainda criança, soterrado após um muro desabar durante um show em Santarém. Hoje navega na rota Manaus-Santarém-Belém.
A tripulação é composta por 14 pessoas. O posto de gerente deixa a Cristiano Morais a incumbência de cuidar da administração do navio. Ele tem um escritório-dormitório no convés principal. É um sujeito pacato, de voz amena. Mas controlar uma viagem com tanta gente exige firmeza. “É muito melhor trabalhar com carga do que com passageiro.”
Gurupá, última escala antes de atracar em Belém. São 14h de sábado. Fábio é um dos vendedores que invade o barco atrás de alguns trocados. Com a alça do isopor por sobre o pescoço, o menino de 11 anos oferece “Cremozim”, um saquinho de sorvete cremoso nos sabores morango, uva e babalu. Logo o navio segue viagem e ele fica. O isopor mais leve nos ombros, um saco de moedas nas mãos.
O Rio Amazonas também fica para trás. Passamos pelo Rio Vieira e agora o afunilar das margens anuncia o início do Estreito de Breves. Na cabine de comando, Milton Melo avisa pelo rádio: “Atento, chamada geral, chamada geral. Aqui, navio Nélio Corrêa baixando no furo do Itamarati. Embarcações vindo no sentido contrário, atentas com o navio Nélio Corrêa.”
Nem a chuva com céu turvo tira a tranquilidade do comandante. A visita é mais do que esperada. “Essa chuva à tarde, isso aí é sagrado.” No estreito, o vento não é tão forte quanto no Amazonas. Águas agitadas, agora, só na entrada da baía. Mesmo com aparelhos importantes, como o radar e o ecobatímetro (usado para medir a profundidade dos rios), o olhar atento e a experiência ainda são os principais instrumentos de trabalho de Milton.
Sentado num banco de madeira, mantém a mão direita no timão. A luva azul com espaço vazado para os dedos é por conta do reumatismo. Dos 58 anos, são 35 enveredando pelos rios. E continua, mesmo aposentado. Nesse tempo, muita coisa mudou. A segurança para navegação, por exemplo, é cada vez melhor. Já o meio ambiente mostra sinais de desatino. “Nunca tinha visto uma cheia e uma seca como essas. O rio baixou tanto que apareceu praia que a gente nem conhecia. São as mudanças climáticas, né?”
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