terça-feira, 5 de junho de 2012

Liminar permite à Vale depositar em juízo taxa estadual sobre mineração no Pará

Do Consultor Jurídico:
Por Pedro Canário

A Justiça do Pará suspendeu, nesta terça-feira (5/6), por meio de liminar, a cobrança da Taxa de Controle, Acompanhamento e Fiscalização das Atividades de Pesquisa, Lavra, Exploração e Aproveitamento de Recursos Minerários (TFRM) de três empresas que atuam no estado. Em Mandado de Segurança, Vale, Vale Mina do Azul e Salobo Metais alegam a inconstitucionalidade da taxa, que passou a vigorar em maio deste ano.

O tributo foi criado pelo governo paraense em novembro do ano passado por meio da Lei paraense 7.591/2011 e regulamentado pelo Decreto 386/2012. Cobra de empresas e pessoas físicas três Unidades Padrão Fiscal paraenses (UPF-PA) por tonelada de minério explorada por mês. Os contribuintes têm até o último dia do mês seguinte ao do fato gerador para pagar.

As empresas alegam que a taxa do Pará é inconstitucional, pois invade a competência da União para tributar a atividade mineral. De acordo com o artigo 22, inciso XII, da Constituição Federal, “compete à União legislar privativamente sobre jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia”. O artigo 20, inciso IX, ainda dispõe que os recursos minerais são “bens da União”.

As mineradoras também afirmam que taxas não podem se destinar à arrecadação estadual de forma geral. Baseiam-se em afirmações da Fazenda paraense de que pretende, por meio da taxa, arrecadar R$ 800 milhões por ano com a mineração. As empresas sustentam que taxas devem estabelecer relações entre o que é pago e o serviço que será contraprestado. Devem, portanto, se destinar a um fim específico. Só impostos podem ser destinados à arrecadação, conforme explica o advogado Fernando Facury Scaff, do Silveira, Athias, Soriano de Mello, Guimarães, Pinheiro e Scaff, que defende a Vale.

Mas a juíza Ana Patrícia Nunes Alves Fernandes, da 6ª Vara da Fazenda Pública de Belém, não entrou no mérito da questão. Sequer menciona os argumentos levantados pelas empresas para basear a liminar. Ela facultou aos contribuintes depositar o valor dos débitos em juízo. “Por considerar a faculdade do contribuinte de realizar o depósito judicial para obter a suspensão da exigibilidade pretendida nos presentes autos, defiro a liminar no sentido de autorizar às impetrantes que efetuem o depósito do valor integral em dinheiro dos débitos decorrentes da cobrança”, decidiu Ana Patrícia.

Morre o último dos “The Platters”

Do Blog do Parsifal

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Um dos mais afinados conjuntos da música pop norte-americana, os “The Platters”, diluiu-se para sempre: o último dos seus componentes, Herb Reed, morreu na segunda-feira (04), em Boston, aos 83 anos.

O “The Platters”, formado originalmente em 1953 por Herb Reed, Joe Jefferson, Cornell Gunther, Alex Hodge e Zola Taylor (essa em 1954), cantaram os doces romances de uma era cada vez mais distante. 
Herb contava que a sua infância, em Kansas City, no Missouri, foi despendida em meio à mais absoluta pobreza: “"Eu tinha tanta fome que não conseguia pensar", disse certa feita em uma entrevista ao “Ed Sullivan Show”. 
O santareno maestro Wilson Fonseca nos disse, na sua belíssima “Terra Querida”, que “recordar é sofrer mais”. 
Se assim é, sofra aí com os “The Platters” em uma das suas mais belas canções, “Smoke gets in your eyes”.



Se você nunca dançou essa música de rosto colado com a pessoa que você ama corra e faça isso: ou você pensa que vai durar para sempre?

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Inelegibilidade de Rocha é factóide, diz advogado do PMDB


A notícia que vem sendo comentada intramuros, há cerca de 15 dias, de que o deputado estadual Antônio Rocha(PMDB) estaria inelegível por que seu filho, o vice-prefeito de Santarém, José Antônio, teria assumido o cargo de prefeito em data posterior a 6 de abril, em substituição à titular Maria do Carmo, não passa de factóide para tentar desestabilizar a candidatura própria do PMDB, afirmou ao Blog do Estado o advogado Luiz Alberto Pixica, membro da executiva municipal do partido.

Segundo Pixica, mesmo que José Antonio tenha praticado atos na ausência de Maria do Carmo, que não lhe trasmitiu o cargo porque a ausência foi inferior a 15 dias, um advogado mineiro consultado pelo partido sustenta que não houve investidura no cargo, uma vez que a prefeita não renunciou ao mandato seis meses antes das eleições. Caso isso tivesse ocorrido e José Antônio tivesse assumido a prefeitura para cumprir o restante do mandado, ai sim se configuraria a inelegibilidade do pai dele nas eleições municipais de Santarém.

Consultado pelo Blog do Estado, o advogado Sábatto Rossetti, especialista em legislação eleitoral, também sustenta que a substituição temporária, inferior a 15 dias, de prefeito por vice-prefeito, não resulta em inelegibilidade de parente até segundo grau candidato a cargos de prefeito ou vice-prefeito nas eleições deste ano.

Diz ainda, Rossetti, que no caso concreto, mesmo que tivesse assumido a prefeitura por causa da viagem de Maria do Carmo para fora o município, José Antônio mesmo assim estaria elegível se pretendesse se candidatar a prefeito de Santarém ou mesmo a vice-prefeito.

Secretário de Finanças exonerado?


Há rumores que o secretário de finanças de Santarém Edmilson Santos Filho vai deixar o cargo ainda hoje.

Sua saída, no entanto, segundo uma fonte vermelhinha, não é para que o mesmo seja candidato em 7 de outubro, e sim por que o mesmo teria sido picado pela mosca azul...

Para um bom entendedor, meia palavra basta.

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Atualização ás 18h00:

A secretária de Governo, Socorro Pena, em contato telefônico com a redação do Blog do Estado, desmentiu a saída do secretário de Finanças Edmilson Filho. Ela atribui a origem da notícia acima publicada "à especulação em época eleitoral".
Socorro adiantou ainda que amanhã, às 9h00, a executiva municipal do PT, concederá entrevista coletiva na sede do partido, na trav. Moraes Sarmento, sobre as definiçoes do partido para o processo eleitoral deste ano.

Estado paga dívida da Celpa junto ao governo federal


Lúcio Flávio Pinto
 
Uma surpresa: o governo do Estado tem que pagar prestação da dívida vencida e não paga pela Celpa. Quase R$ 3 milhões saem dos cofres públicos. A continuar assim, e com o silêncio geral, qual será a próxima má surpresa no processo de recuperação judicial da empresa?

No dia 20 de abril venceu uma parcela da dívida total, em valor original equivalente a 44 milhões de dólares, da Celpa junto ao governo federal. Já em regime de recuperação judicial, concedido pelo juiz da 13ª vara cível de Belém, em 28 de fevereiro, a empresa não pagou a prestação vencida. Imediatamente o Banco do Brasil debitou o valor da parcela – de 2,7 milhões de reais – contra o Estado, em uma agência do Banpará, “devido a não quitação de Dívidas de Longo e Médio Prazo”.

Quem não honrou o encargo foi a Celpa, que é uma empresa privada há quase um quarto de século. Mas quem respondeu pela quitação foi o governo do Estado, na condição de garantidor do contrato de liquidação de dívida assinado pelas três partes (União, Estado e Celpa) em 31 de dezembro de 1997. Pela parte paraense assinaram esse contrato o então governador Almir Gabriel, o secretário da Fazenda do Estado, Paulo de Tarso Ribeiro, e o presidente do Banpará, e seu irmão, Mário Ribeiro.

A Celpa conseguiu três empréstimos junto ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), cada um deles de aproximadamente 45 milhões de dólares. Pagou os dois primeiros. Não pagou o terceiro. A renegociação que fez em 1997 abrangeu sete prestações que venceram entre 1994 e 1997. Na época, elas equivaliam a quase 50 milhões de reais.com a paridade dólar/real do início do plano de estabilização econômica.

A operação foi alcançada pela decretação da recuperação judicial da empresa. A Celpa se valeu da lei criada pelo governo federal como resposta a uma crise empresarial anterior, ainda maior, a da Varig (que nem assim, com todos os benefícios das novas regras, em substituição à antiga lei das falências, conseguiu lograr êxito – e fechou). As condições se tornaram melhores para a empresa em processo pré-falimentar e piores para os seus credores.

Aproveitando-se da suspensão de todas as execuções e cobranças, determinada pelo juiz da 13ª vara, a Celpa não pagou a prestação devida ao BID. Alegando que o contrato mútuo não era atingido pela medida judicial, já que a garantia da quitação era dada por um terceiro personagem e não pela tomadora do dinheiro, a União tratou logo de se ressarcir em cima do Estado.

A quarta cláusula do contrato de 1997 estabeleceu que o governo estadual se comprometia a transferir à União “os créditos que forem feitos à sua conta de depósitos provenientes das receitas próprias, objetos de depósitos perante o Banco do Estado do Pará”. O Banco do Brasil, como agente financeiro da União, executou essa disposição. Simples.

Quando o contrato de confissão de dívida foi assinado, a Celpa ainda era estatal. Mas foi privatizada cinco meses depois. O Grupo Rede foi o vencedor do leilão. Pagou 400 milhões de reais ao governo Almir Gabriel, que tinha investido bastante no preparo da estatal para a venda, inclusive a saneando financeiramente. O dinheiro do BID entrou no caixa da Celpa e foi gasto. Como o grupo Rede não honrou o compromisso, o Estado, na condição de garantidor da transação, vai continuar a pagar. É legal? É justo?

Essas perguntas remetem ao âmago do processo de recuperação judicial, que chega ao seu terceiro mês com toda a aparência de que irá terminar, como no caso da Varig, em falência da Celpa. E, como efeito dessa condição, na sua federalização ou reestadualização. Com alívio para o grupo privado.

De 1998, quando assumiu o controle da Celpa, até novembro de 2005, o grupo Rede transferiu parte do lucro obtido no Pará para as demais empresas do conglomerado, conforme admitiu a sua presidente, Carmem Campos Pereira, em entrevista dada na época ao Diário do Pará. Mas ela garantiu que, a partir dessa data a Celpa não fez mais “qualquer transferência de recursos via mútuo” e que boa parte desses recursos “já foram pagos pelas empresas integrantes de seu grupo econômico”.

Como a presidente não forneceu qualquer número a respeito, impossibilitando uma análise mais profunda sobre o balanço da Celpa no Estado, é de se perguntar se realmente houve o ressarcimento e a devolução do dinheiro repassado às demais empresas do grupo a partir de faturamento no Pará. É questionamento para ser respondido através de perícia contábil na papelada que forma o processo, com mais de sete mil páginas, no maior processo de recuperação judicial (o novo nome da falência) da história do judiciário paraense.

Mas já se pode fazer uma constatação: além de exportar energia bruta para fora do seu território (é o terceiro Estado brasileiro mais sangrado em energia), o Pará se sujeita a ver a renda da exploração interna dos seus bens ser utilizada em outros Estados; no caso da Rede, sobretudo em Mato Grosso.

Parecia que o grupo teria vida longa no Pará. O preço da aquisição foi barato. Tão favorável que o governo Almir Gabriel impôs ao cidadão paraense o maior imposto sobre o consumo de energia do país, com uma alíquota de 25% de ICMS. A intenção era recuperar um pouco as finanças do poder público, abaladas pela política federal, que também era comandada pelos tucanos, estes de maior plumagem. Os pessedebistas inventaram ardis como a lei Kandir, que continua a provocar hemorragia tributária no Pará, de novo nas mãos de tucanos papachibés.

A privação de recursos públicos por causa do aval dado pelo Estado à Celpa devia provocar a atenção da opinião pública. A recuperação judicial foi deferida em menos de 24 horas pelo juiz Mairton Carneiro, que apenas respondia pela 13ª vara, na ausência da titular.

Dificilmente haverá recuperação, como já evidenciaram os numerosos incidentes processuais e a instrução acidentada do processo. Não há um clima de confiança e entendimento. A dívida, inicialmente calculada em 2,4 bilhões de reais, já pulou para 2,9 bilhões. Quase todos os dias novos pedidos de habilicitação (e também de impugnação) de créditos são apresentados à justiça.

O grupo Rede tem sonegado informações ao conhecimento público. Só juntou os documentos da dívida do empréstimo internacional obrigado pelo Ministério Público do Estado. Não foi documento anexado espontaneamente ao pedido de recuperação, indício de que a empresa agiu com alguma malícia. Mesmo assim, suas múltiplas e complexas requisições foram prontamente atendidas pelo juiz não titular da vara.

Mairton Carneiro indicou como seu representante na ação Vilmos Grunwald, que participou do governo Almir Gabriel e atuava no setor elétrico quando da privatização da Celpa. Ele foi destituído da função de administrador pela juíza Filomena Buarque, quando ela reassumiu – e imediatamente depois do longo despacho do seu interino – a vara, e substituído pelo advogado Mauro Santos, da confiança da magistrada. Como o processo da Celpa é o de maior valor que já passou pelas varas das falências na justiça do Pará, o novo administrador tem um das maiores remunerações do mercado: nada menos do que R$ 80 mil por mês.

É um vencimento de causar inveja a qualquer um, mas que se justificaria pela dimensão da questão. Dimensão que não aparece na grande imprensa local. A atenção dispensada ao caso é mínima, talvez porque os dois grupos de comunicação, o dos Maioranas e o dos Barbalhos, devam em conjunto à Celpa mais de oito milhões de reais em contas não pagas de energia. Para fazer um encontro de contas, a Celpa anuncia desbragadamente nos veículos dos dois grupos, o que tem a ver com seu silêncio, quando não conivência com a concessionária.

Mantendo-se essa situação, a opinião pública será surpreendida se os rastilhos de pólvora deixados pelo grupo Rede na condução da Celpa começarem a estourar, levando ao quadro que já se delineia: a falência da empresa, em meio a blecautes, convulsão social e sangria financeira. O Pará, mais uma vez, está desprotegido.

domingo, 3 de junho de 2012

Bastidores da política de Santarém

Inácio pensou em desistir

Na Coluna do Estado, do jornal O Estado do Tapajós, que está nas bancas: "Foi tenso o clima entre as tendências do PT em Santarém. Tudo porque o pré-candidato do partido à sucessão da prefeita Maria do Carmo não anda nada satisfeito com a campanha ferrenha que lideranças contrárias a sua candidatura vem fazendo junto à militância para desestabilizá-lo. Esta semana, Inácio chegou a pensar em desistir da candidatura, mas a prefeita e o secretário de planejamento Everaldo Martins Filho tentam apaziguar a situação."

Coisa oferecida ninguém quer

Chega a ser patética a investida do presidente local do PDT em cima do cargo de vice-prefeito em quaisquer das chapas cujas cabeças já são conhecidas. A todos os partidos, o nome do vereador Bruno Figueiredo é oferecido, mas por todos rejeitado. É que o PDT é o partido de maior rejeição junto ao eleitorado de Santarém e nenhum líder político quer correr risco de afundar com os brizolistas.

PT rechaça proposta do PMDB

A executiva municipal do PT rejeitou a proposta do PMDB santareno para que os petistas indicassem o nome do vice na chapa do deputado Antônio Rocha, que teve sua candiatura lançada à prefeitura de Santarém, último dia 25, pelo senador Jader Barbalho. A direção local do PT reafirmou a posição de lançar candidato próprio à sucessão de Maria do Carmo.

Números

Até sexta-feira, este era o placar de visitas de políticos à feira do livro, que se encerra neste domingo: Alexandre Von(PSDB) 44; Antônio Rocha(PMDB) 9; Márcio Pinto(Psol) 8, Reginaldo Campos(PSB) 7; Inácio Corrêa(PT) 5; Rubson Santana(PSC) 1.

 


sábado, 2 de junho de 2012

Pistolagem profissional se sofistica na Amazônia


Lúcio Flávio Pinto
Título origional do artigo: O monstro do modelo

Viajei muito pela Amazônia entre o final dos anos 1960 e meados dos 1990. Durante boa parte desse período, andei sozinho. Além de escrever, também passei a fotografar. A companhia de um fotógrafo profissional era necessária, mas, quando atrapalhava, era para valer. Nessa época ia-se pouco ao mato amazônico. Hoje, apesar de toda propaganda, menos ainda.
Mesmo indo sozinho a lugares distantes e isolados, nunca me senti tão inseguro que me visse obrigado a novamente convocar um parceiro de jornadas. Algumas das excursões podiam ser até temerárias.
Como, por exemplo, fretar um barco e nele percorrer boa parte do curso do rio Amazonas em território brasileiro, por longos e aquosos dias, para ver uma das maiores cheias do século passado, a de 1976.
Ou ir num monomotor com revestimento de pano a uma aldeia indígena, saindo sem teto da pista de Ji-Paraná e furando nuvens para chegar à terra dos Suruí. E voltar para Porto Velho num táxi caindo aos pedaços, que avançava, madrugada adentro, numa BR-364 em obras, com tratores espalhados pelo caminho. Sem temer assaltos ou supor que a vida estivesse sob a ameaça de algum agressor oculto.
A situação mudou. Para pior. Andar pelo sertão amazônico (cada vez mais sertão e menos amazônico) se tornou uma temeridade. Há mais pistoleiros em ação nas frentes (pioneiras ou econômicas) da Amazônia, matando por encomenda.
Mas é difícil identificá-los e localizá-los. Quem encomenda o “serviço” fornece a arma e toda a logística para a execução. O pistoleiro, depois, volta às suas atividades regulares, sem qualquer traço de associação ao crime. Até o próximo contato.
Ele pode viver num assentamento de sem-terra. Há notícias da presença constante de pistoleiros entre os lavradores. Os “profissionais do gatilho” também são agricultores na entressafra do crime. Mas não se expõem mais como antes, em locais certos e muito conhecidos. Não dão mais bandeira, como se dizia na gíria (ainda usada?).
Criminosos de grande periculosidade usam fachadas legais como essa para atuar com mais desenvoltura, sem correr o risco do estigma, da identificação fácil.
Provavelmente quadrilhas de bandidos estão se deslocando de suas áreas nativas, no Rio, em São Paulo e no Nordeste, atraídas pelas possibilidades de ganho melhor e mais seguro em áreas amazônicas de migração intensa, como hidrelétricas, minerações, estradas ou portos. Tem know-how para aplicar golpes rentáveis.
Quem olhar com as lentes apropriadas perceberá dois fenômenos em crescimento acelerado. Um deles já é mais antigo: a criminalização dos movimentos sociais, da militância pela causa dos direitos humanos, em especial das minorias, e de reação à política oficial de ocupação da Amazônia, ainda à base da indução ao conflito, ao desequilíbrio social.
O outro é bem mais recente e há pudor em referir-se a ele: é a ação de criminosos que se aproveitam justamente daqueles reformadores, defensores da dignidade humana e contestadores, que se entestam com o aparato estatal, ainda viciado pela promiscuidade com as elites do poder.
Os militantes sociais costumam ver os problemas da Amazônia por uma ótica dualista, no velho maniqueísmo do bem e do mal, do bom e do mau, do certo e do errado.
O posseiro de um lado, o lado bom; o proprietário de terras do outro, sempre errado. A empresa, que precisa ser atacada, e o indivíduo, merecedor de todo apoio. O índio puro e indefeso e o branco devastador.
Esses papéis existem de fato e definem o espectro de personagens, mas está muito longe de esgotar a realidade.
A Amazônia tem crescido mais do que o Brasil. A Zona Franca de Manaus se tornou um polo industrial de expressão nacional. O Pará, que é o sétimo maior exportador do país, é o segundo em saldo de divisas graças às suas poderosas exportações de minérios.
O ônus desse crescimento acelerado é o agravamento de todos os indicadores sociais, um desequilíbrio que, literalmente, atrai cada vez mais criminoso.
Amansa-se a terra com bandidos, não com mocinhos, disse certa vez o economista Delfim Neto, quando era o todo-poderoso ministro do regime militar (hoje é o todo-poderoso conselheiro dos dirigentes petistas). A ideia vem dos bandeirantes do século 17. Hoje, ao invés de amansar a terra, os bandidos a revolvem. Ajudam a destruir, não permitindo que este seja um monopólio estatal.
Um indicador dessa nova situação pode ser percebido nas manifestações de protesto realizadas nas três grandes hidrelétricas em construção na Amazônia. Duas delas no rio Madeira, em Roraima. E a outra, a de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará.
Comparando-se como se comportaram os manifestantes nas depredações de acampamentos da usina de Jirau com as atitudes dos operários no canteiro de obras de Belo Monte, é possível distinguir um impulso vândalo para criar oportunidades de saque e destruição de um movimento planejado e realizado para possibilitar corrigir erros no sistema de trabalho e proporcionar novas conquistas socais.
Essa distinção dificilmente poderá ser feita a olho nu. Requer lente especial para penetrar nas aparências e perfurar o dualismo maniqueísta dos sempre bons e dos sempre ruins. Há uma convulsão e um embaralhamento social na Amazônia, certo caos, que é o produto natural do modelo concentrador e tendente ao desequilíbrio, em execução imutável desde 1975.
Foi quando entrou em vigor o II Plano Nacional de Desenvolvimento (o PND, com seu capítulo regional, o PDA), que era quinquenal (e que, se não tivesse surgido no governo do general Geisel, um desavisado talvez pensasse ser bolchevique).
Mas esse caos poderá ultrapassar as piores previsões e projeções. O monstro em gestação poderá se tornar ingovernável e, quem sabe, se voltar contra o seu criador. Um Frankenstein social na selva. Capaz de espantar mister Cecil Rhodes.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Capa da edição desta semana de O Estado do Tapajós

Clique na  imagem para ampliar.

Encarte de O Estado do Tapajós que circula no V Salão do Livro do Baixo-Amazonas


 
 
 
 
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   
   
   
 

 

Santarém recebe Caravana Pro Paz Cidadania

Agência Pará.
Fotos: Silvia Vieira(O Estado do Tapajós)


Emissão de documentos

A população do município de Santarém, no Baixo Amazonas, recebeu na manhã desta sexta-feira, 1º, a Caravana Pro Paz Cidadania Presença Viva, que percorre os municípios da região levando uma série de ações e serviços gratuitos. As equipes do governo já passaram pelos municípios de Almeirim, Prainha, Monte Alegre e Alenquer, beneficiando a população com mais de 200 mil procedimentos na área de saúde e cidadania. Em Santarém, quarta cidade a ser visitada nesta etapa do programa, a meta é realizar 1.280 consultas por dia, além dos atendimentos que garantem a emissão de carteira profissional, carteira de identidade, certidão de nascimento, orientação jurídica, atividades culturais e oficinas voltadas à população. 

Em Santarém, o reforçada às ações de cidadania serão reforçadas, já que um diagnóstico feito pelo governo constatou a existência de uma demanda reprimida nessa área, especialmente no que concerne à emissão de carteiras de trabalho e de identidade. "Reforçamos nossa equipe e nosso material para atender esta procura. Aqui em Santarém emitiremos duas mil carteiras de trabalho, sendo 500 por dia”, afirmou o coordenador da Caravana Pro Paz, Jorge Bittencourt.
Deputado Alexandre Von visita ônibus do Pro Paz

Larissa Marcioliver, 17, chegou cedo à Caravana para garantir sua carteira profissional e ficou satisfeita. “Dá ultima vez que fui tirar minha carteira demorou bastante, é que aqui em Santarém são emitidas somente 40 senhas por dia. Às vezes passamos a noite na fila e a senha não chega para todo mundo. Hoje foi bem mais rápido e mais fácil, estou bem satisfeita. Agora vou correr em busca do emprego, pois carteira eu já tenho”, descontraiu a jovem.

Saúde
Serviço oftalmológico
Por meio da Caravana, a população garante atendimentos médicos nas especialidades de Cardiologia, Ginecologia, Pediatria, Odontologia, Clínica Geral e Oftalmologia, o serviço mais procurado em todos os municípios do Baixo Amazonas. “A meta do programa é realizar, durante os quatro dias em Santarém, 1.600 consultas oftalmológicas, 1.200 em Cínica Geral, 720 em Ginecologia, 640 em Pediatria, 400 em Cardiologia e 360 em Odontologia. As senhas são distribuídas a partir das seis da manhã. Nossas atividades terminam quando atendemos o último paciente”, destacou a diretora da Rede de Assistências Regionais da Saúde (DDRAR), Rita Facundo, da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

Expansão
O coordenador da Caravana, Jorge Bittencourt, anunciou ainda que o governador autorizou a aquisição de mais três carretas, além das oito que já existem. O objetivo é reforçar e expandir os serviços à população. A novidade fica por conta dos atendimentos em especialidades, como é o caso da saúde da mulher, que terá uma carreta destinada exclusivamente para esse fim, estruturada para oferecer exames de Raio X, ultrassonografia e mamografia.

A Caravana Pro Paz permanecerá no município até a próxima segunda-feira, 4, disponibilizando mais de 50 serviços diferentes. Os interessados devem procurar a sede do Sesi, localizado na Rodovia Curuá-una, no período de 8 as 17 horas. As senhas para os atendimentos de saúde são distribuídas a partir das 6 da manhã e os atendimentos começam às 8h. Para adquirir a carteira de trabalho é necessário apresentar o Registro Geral (Identidade). Já para a emissão da carteira de identidade é preciso apresentar a certidão de nascimento e para as pessoas casadas, a certidão de casamento.

Edição em PDF de O Estado do Tapajós(25.05.2012)



 
 
 
 
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   
   
   
 

 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

MP ajuíza ação de improbidade contra ex-governadora Ana Júlia e ex-dirigentes da Cosanpa

O Ministério Público do Estado, por meio da Promotoria de Justiça de Direitos Constitucionais Fundamentais, Defesa do Patrimônio Público e da Moralidade Administrativa de Belém ingressou esta semana com uma Ação Civil Pública (ACP) por ato de improbidade administrativa contra a ex-governadora do estado, Ana Júlia Carepa, o economista José Carlos dos Santos Damasceno, os dois ex-presidentes da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa), Edilson Rodrigues de Sousa e Sérgio Roberto Rodrigues de La Roque, o ex-diretor financeiro, Maurício Otávio de Almeida, e a ex-chefe da unidade de gestão financeira, Maria Leonor Pereira Barros, os dois últimos também da Cosanpa. 

A ação foi distribuída para a juíza Cynthia Beatriz Zanlochi Vieira, da 3a Vara da Fazenda Pública de Belém.

Leia a matéria completa aqui.

Expansão imobiliária engole o verde em Santarém

Clique na imagem para ampliar.


3 mil pacientes esperam por cirurgias no Hospital Regional de Santarém

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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sai resultado do concurso da UFOPA

Confira o listão aqui

A soberba e o rancor de Lula


Rede Democratas




- O verdadeiro teor da conversa entre o ex-presidente Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes jamais será completamente conhecido. Ficará a palavra de um contra a de outro.

- Porém, independentemente do que ocorreu, o ex-presidente Lula tem vindo de uma escalada de desrespeito institucional desde há muito tempo. E, pior, sempre insuflado por militantes, simpatizantes e mesmo jornalistas pagos por verbas de empresas estatais.

- É possível, portanto, demonstrar que é perfeitamente factível o relato de Gilmar Mendes segundo o qual Lula estaria disposto a fazer chantagens para que o julgamento do mensalão seja adiado. Pior, que esteja ajudando "bandidos" a divulgar informações falsas e caluniosas sobre autoridades públicas.  

- Para começar, desde que abandonou o governo, Lula anunciou publicamente qual seria sua meta: “acabar com a farsa do mensalão”.

- Ora, para transformar em “farsa” uma série de eventos investigados pela Polícia Federal, fartamente documentados pela imprensa, denunciados pelo Ministério Público, e prestes a serem julgados pelo Supremo, é preciso estar disposto a tudo.

- “Lula não está fora de si. Está, isto sim, cada vez mais senhor de si. Investido no figurino do personagem autorizado a desrespeitar tudo e todos no cumprimento de suas vontades”, afirmou a colunista do Estado de S. Paulo, Dora Kramer.

- Continua a colunista: “E por que (Lula) o faz? Porque sente que pode. E pode mesmo porque deixam que faça. A exacerbação desse rude atrevimento é fruto de criação coletiva e não surgiu da noite para o dia. A obra vem sendo construída gradativamente no terreno da permissividade geral onde se assentam fatores diversos e interesses múltiplos, cuja conjugação conferiu a Lula o diploma de inimputável no qual ele se encontra em pleno usufruto”.

 - O próprio local onde o suposto encontro entre Lula e Gilmar Mendes ocorreu pode despertar suspeita: no escritório de advocacia do ex-ministro Nelson Jobim. No gabinete do integrante do STF, por exemplo, seria mais condizente se a reunião com os cargos que todos ocupam ou ocupavam e o assunto que estava em questão.

- É preciso registrar que Gilmar Mendes já reiterou sua versão do encontro com Lula. E foi além, disse que as acusações contra ele produzidas por criminosos.  “Vamos deixar claro: estamos lidando com bandidos que ficam plantando essas informações", afirmou o ministro.

 - Já o ex-presidente se manifestou apenas dois dias após a divulgação dos fatos e por meio de uma nota. 

 - A tentativa de esclarecimento relativamente lacônica de Lula se mostrou apenas como uma pausa em uma soberba crescente de quem passou a acreditar em mitos que lhe eram atribuídos por bajuladores como: “o maior brasileiro já nascido nessas terras”, “o homem que finalmente governou para os pobres após 500 anos de exploração de uma elite predatória”, entre outras estultices.

- Nesse ínterim, Lula também passou a desancar adversários políticos, tratá-los como inimigos a serem extirpados. Passou a agir sem limites. Um dos alvos de Lula, que fique claro, sempre foi o Democratas, que nunca baixou a cabeça para as bravatas do ex-presidente.

- De acordo com o respeitado jornalista Fábio Pannunzio, o próprio Lula, por incrível que pareça, foi responsável pelo vazamento do encontro com Gilmar Mendes. 

 - O evento com Gilmar Mendes pode ser um teto nessa trajetória aparentemente sem limites de um ex-presidente.

- O decano do STF, ministro Celso de Mello, deu o tom da gravidade da suposta ação de Lula. “Se ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro”.

 - Em meio a tanta obscuridade, a oposição fez o que se esperava dela. DEM, PSDB, PPS e PSOL entraram com uma representação criminal contra o ex-presidente na Procuradoria Geral da República. Lula pode ter praticado no mínimo três crimes: corrupção ativa, tráfico de influência e coação.

- O irônico nisso tudo é que Lula, movido pelo rancor, esteve por trás da CPI do contraventor Carlinhos Cachoeira para tentar triturar seus inimigos políticos.  Não deu certo. Talvez por seus excessos, se vê agora no olho do furacão.

Lúcio Flávio Pinto receberá Prêmio Herzog em outubro


Conforme antecipou, ontem, o twitter do Blog do Estado, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal e articulista do jornal O Estado do Tapajós e do Blog do Estado, foi agraciado com o Prêmio Especial Vladimir Herzog 12.

Abaixo, a comunicação da concessão da honraria ao jornalista:

São Paulo, 28 de maio de 2012
Prezado jornalista
Lúcio Flávio Pinto
É com grande alegria que levamos a seu conhecimento a notícia de que seu nome foi escolhido para receber o “Prêmio Vladimir Herzog Especial 2012”. Este ano, excepcionalmente, haverá dois premiados nessa categoria. Ao seu lado, será laureado o jornalista Alberto Dines, quesabemos admirador de seu trabalho.
A escolha de seu nome foi unânime entre os componentes da Comissão Organizadora do Prêmio Vladimir Herzog. Sua trajetória corajosa e trabalho exemplar à frente do Jornal Pessoal são motivo de orgulho para todos os jornalistas brasileiros.
As entidades representadas na Comissão Organizadora acompanham com preocupação as pressões que se opõem ao seu trabalho jornalístico. Causa consternação que, 24 anos depois de promulgada a Constituição Federal de 1988, esse tipo de cerceamento ainda medre no país.
Sabemos que seu trabalho à frente do Jornal Pessoal combate justamente esse Brasil atrasado e autoritário. É exemplar o seu esforço para manter uma publicação independente que contraria interesses hegemônicos.
É com a expectativa de seu aceite que, desde já, esperamos tê-lo conosco na cerimônia de premiação, no próximo dia 23 de outubro, terça-feira, às 19h30, no Teatro da Universidade Católica - TUCA (Rua Monte Alegre, 1024, São Paulo).
Obrigado, Lúcio Flávio Pinto, pelo exemplo e pela motivação que sua atuação transmite à nossa sociedade. Receba, por meio desta carta, o nosso reconhecimento, nosso apoio e nossa gratidão.
Subscrevemo-nos, honrados.
Atenciosamente
Ana Luisa Zaniboni Gomes
Curadora da 34ª edição, em nome da Comissão Organizadora
Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo ‐ ABRAJI
Associação Brasileira de Imprensa – Representação em São Paulo – ABI/SP
Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil – UNIC Rio
Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP
Federação Nacional dos Jornalistas ‐ FENAJ
Fórum dos Ex‐Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo
Instituto Vladimir Herzog
Ordem dos Advogados do Brasil ‐ Seção São Paulo – OAB/SP
Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

segunda-feira, 28 de maio de 2012

As contas escondidas da Vale


by Lúcio Flávio Pinto

Foi em 2005 que a Vale imprimiu seu último balanço anual em papel. A partir do ano seguinte só o seu relatório de sustentabilidade teria versão em papel . Nunca mais as demonstrações contábeis e financeiras. Elas ainda podem ser consultadas, mas apenas na versão eletrônica, no site da empresa. Mesmo assim, a forma mais difundida do relatório não é mais anual: limita-se a períodos trimestrais.

Quem quiser ter uma visão integral detalhada  do desempenho da empresa vai ter que agregar os números por iniciativa própria, o que demanda mais tempo, paciência e competência específica.

Em compensação, a cada trimestre – ou a cada momento importante das atividades da companhia – são abundantes os press-releases que a empresa envia aos jornalistas. Tão detalhistas que quase contêm a verdade. Quase.

Sempre há um detalhe, em geral inconveniente, que não é contemplado nesse feerico material de divulgação. Para obtê-lo, porém, o profissional da informação terá que gastar muito mais trabalho. Por que não se contentar com o belo prato feito?

Um número crescente de jornalistas faz essa opção, até se esforçando por esticar ao máximo o rendimento em cima dos dados fornecidos pela Vale. Devem ter a sensação de poder surpreender a autora da gentileza e serem fiéis ao compromisso com o leitor, mas é difícil.

O enredo parece perfeito. Consciente da sua responsabilidade social, a empresa se dispõe a um strip-tease informativo, fornecendo tudo que é relevante para uma análise séria e honesta do seu desempenho, monitorado pelo mercado através das bolsas de valores, principalmente a de Nova York.

Tão desprendida ela se revela nessa disposição que torna perfeitamente dispensável a apuração à margem ou além dos alentados pacotes que despacha para a mídia. Acompanhados, é claro, de farta publicidade para o topo das empresas jornalísticas. Publicidade inteiramente dispensável para uma corporação que negocia contratos de longo prazo, e de alto valor, com seus clientes - que são poucos.

Muitos jornalistas e analistas em geral devem reagir positivamente aos relatórios de sustentabilidade da Vale. Neles, a empresa demonstra o grau e a extensão do exercício das responsabilidades que lhe cabem em relação à sociedade e à natureza. Os relatos são abundantes e as imagens, sempre de impressionar, são numerosas. A mineradora faz jus ao crédito: está procurando um relacionamento franco com a opinião pública, convicta de que o seu modo de proceder é sua melhor defesa.

Quando a Vale deixou de publicar em papel o seu balanço anual, que sempre incluía as demonstrações contábeis e financeiras em toda a sua extensão, fiz chegar minha estranheza e, em seguida, meu protesto a quem interessava, os ditos canais competentes.

Não se tratava apenas de uma impensada e automática adesão da corporação ao meio eletrônico, como tem acontecido com frequência preocupante no mundo dos negócios e no âmbito público.

Afinal, o relatório de sustentabilidade continuou a ser impresso, com os recursos gráficos sofisticados de antes. Além disso, o verdadeiro balanço contábil também deixou de ter até no site da companhia o destaque dado aos relatórios trimestrais. Para completar, press-releases cada vez mais fartos, como se contivessem todas as demonstrações e as tornassem dispensáveis.

Minha resistência a aceitar essa nova realidade era apenas sinal de caduquice e teimosia, de iconoclastia irracional, de desajuste ao novo tempo tecnológico? O leitor poderá comparar as análises que eaqui  e no meu Jornal Pessoal - se faz das atividades da Vale com o que sai não num ou noutro jornal, mas em toda a mídia nacional. Se concluir que o que aqui sai nada tem de diferente dos demais meios de comunicação (não estou falando em interpretação, mas em dados brutos mesmo), então é verdade: não passo de um criador de caso.

No entanto, desde que a censura política se restabeleceu no Brasil, depois do AI-5, no final de 1968, ao buscar informações significativas e de confiança num ambiente empobrecido, acabei descobrindo que os balanços das empresas (como os orçamentos dos governos, estes com menor grau de segurança e credibilidade) são fontes indispensáveis sobre o que vai pelo mundo, conforme anunciavam aqueles noticiosos exibidos nos cinemas até meados da década de 60 do século passado.

Quando comecei a consultá-los, os balanços ainda eram muito suscetíveis a manipulações e maquiagens. Com o passar dos anos, graças à melhoria na legislação e ao melhor controle da Comissão de Valores Mobiliários, as demonstrações foram espelhando mais adequadamente a realidade das empresas. Mesmo algumas manobras ainda cometidas podem ser identificadas e revertidas, de tal maneira que boa parte delas perdeu eficácia (não de todo, como se pode verificar em algumas descobertas de fraudes feitas, infelizmente, só a posteriori dos danos que causaram).

Em tal contexto, é inaceitável que a maior empresa privada do Brasil e do continente, uma das mais disputadas e valorizadas na bolsa de valores, não procure dar a maior difusão possível às suas contas. Pelo contrário: segue em sentido inverso ao que seria de se esperar se aplicasse os compromissos – que diz pôr em prática no balanço social – às suas demonstrações contábeis e financeiras.

Os jornalistas conscienciosos e sérios deviam se interessar pela questão e cobrar da Vale a publicação do seu balanço anual, na íntegra, em papel, com o uso da melhor forma de apresentação possível para facilitar sua compreensão.

Só assim – e não com ricos press-releases – ela cumprirá sua responsabilidade social. Permitirá que os verdadeiros analistas se debrucem sobre suas contas sem viseiras nem pretextos outros que desviem sua atenção do compromisso maior: com a opinião pública e não com a empresa, qualquer que ela seja. Mesmo a mais reluzente de todas.