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sexta-feira, 9 de março de 2012

Jovem norte-americano cruza rios da Amazônia a bordo de uma jangada

Um americano de 22 anos de idade esta fazendo uma aventura pelos rios da Amazônia em uma jangada bastante convencional, que relembra as aventuras do marinheiro inglês Robson Crusoé.
 
O aventureiro atracou no trapiche da vila de Fordlândia  depois de três dias de viagem procedente de Itaituba.
 
 
Ele informou ao blog Fordândia Portal de Notícias que deixou os EUA há quatro anos e que atualmente não tem paradeiro certo ele. O resultado desta aventura pela Amazônia vai servir para a edição de um livro.
Amanhã, o aventureiro deixa Fordândia com destino a Santarém, onde fará ajustes em sua jaganda para prosseguir viagem até Macapá(AP).


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Realidade da Amazônia


Lúcio Flávio Pinto

A edição especial da revista Realidade de outubro de 1971 não foi apenas a “mais longa, custosa e apaixonante reportagem” já realizada pela Editora Abril, como proclamava o seu dono, Victor Civita, na “Carta do Editor”, mas a maior de todas as reportagens da história da imprensa brasileira. Para criar as 328 páginas da edição (das quais 137 de anúncios), em formato grande, foi recrutada uma equipe de 40 pessoas, 16 delas jornalistas, dos quais 13 foram a campo, incluindo o maior grupo de grandes fotógrafos que já trabalharam juntos (Maureen Bisilliat, Cláudia Andujar, George Love, Amâncio Chiodi, Darcy Trigo e Jean Solari), responsáveis pelas deslumbrantes fotografias (dentre elas, o antológico ensaio de Cláudia sobre os índios Yanomami, que passariam a ser sua causa) estampadas por qualquer publicação periódica nacional.

Para cobrir toda Amazônia, os repórteres viajaram de barco, carro a avuão durante 1.232 horas, cobrindo 148 mil quilômetros de selva e rio, visitando 135 cidades. Concluíram, pela voz do editor,  que a Amazônia era mesmo “a última grande fronteira terrestre a ser civilizada”, mas que o progresso trazido por sua ocupação devia seguir “em harmonia com a natureza”. Foi por “acreditar nessa possibilidade” que a Abril aceitou patrocinar a maior de todas as edições até então publicadas por Realidade tendo por tema único a região.

O sucesso de público e de crítica do trabalho excedeu todas as expectativas. Logo a edição – que alguns diziam ter sido de 250 mil exemplares e outros falavam em mais do que o dobro – se esgotou. Alguém tentou tirar o que à época se chamava 2º clichê. Mas outro alguém, convicto de que as vendas seriam inferiores, destruiu as matrizes. A edição nº 67 de Realidade se tornou relíquia. Outras edições especiais posteriores, sobre o Nordeste e Cidades Brasileiras, não repetiram a façanha e a revista, criada em 1966 e atingida violentamente pelo AI-5, de dois anos depois (quando, por infeliz coincidência, começou a história de Veja), não recuperou mais seu prestígio. Vegetou até desaparecer, em 1972, mais como uma versão de Seleções do Reader’s Digest do que da grande revista de reportagens que foi no apogeu.

Passados 40 anos, nenhuma empreitada jornalística se aproximou sequer de Realidade/Amazônia. É quase certo que jamais o que foi realizado nessa edição se repetirá. Primeiro por impossibilidade – ou incapacidade – de as empresas investirem o que foi aplicado na cobertura da Amazônia pela revista. Qual seria o valor atual? Seria bom fazer um cálculo exato. Mas nunca ficaria abaixo do milhão de reais.

Em segundo, pela qualidade da equipe comandada com maestria por Raimundo Rodrigues Pereira. O trabalho levou o tempo de um parto, nove meses, para ser finalizado. Nesse período, os repórteres contaram com todos os meios de transporte disponíveis, incluindo numerosos fretes de pequenos aviões, para ir onde fosse necessário para documentar “de maneira definitiva o momento mais dramático da Amazônia”.

Esse momento ímpar, no qual a Amazônia foi rasgada por estradas e frentes pioneiras e sucumbiu, talvez de forma definitiva, a um modelo externo e agressivo de ocupação, está muito bem documentado na revista. Nele sente-se, porém, um tom de exotismo, de otimismo e crença na capacidade de harmonização do avanço com as exigências da natureza e do homem. Essa crença comprometeu o descortino do caos que viria, não como elemento de surpresa, mas de efeito lógico desse modelo.

Foi uma felicidade para mim ter integrado a equipe. Aprendi com Raimundo um tanto do que apenas dois outros jornalistas me ensinaram: Cláudio Augusto de Sá Leal em Belém e Raul Martins Bastos em São Paulo. No final da jornada eu tinha certeza de que minha tarefa não era olhar para a Amazônia de um promontório paulistano, mas varejando por suas trilhas. À cata dos fatos, de uma verdade, da história.

domingo, 16 de outubro de 2011

Obras na Amazônia atraem 7 'trens-bala'

Investimentos somam, pelo menos, R$ 212 bilhões e criam novo ciclo de
expansão econômica na região. Plano cria saída para o agronegócio exportador e uma nova estrutura para geração de energia e exploração mineral

JULIO WIZIACK
AGNALDO BRITO
FOLHA DE SÃO PAULO

O governo federal e o setor privado inauguraram um novo ciclo de desenvolvimento e ocupação da Amazônia Legal, onde vivem 24,4 milhões de pessoas e que representa só 8% do PIB brasileiro.O pacote de investimento para os nove Estados da região até 2020 já soma R$212 bilhões. Parte já foi realizada. O valor deverá subir quando a totalidade dos projetos tiver orçamentos definidos.

Esse volume de recursos equivale a sete projetos do TAV (Trem de Alta Velocidade), pouco mais de quatro vezes o total de capital estrangeiro atraído pelo Brasil em 2010 e duas vezes o investimento da Petrobras para o pré-sal até 2015. Excluindo o total do investimento do país no pré-sal, os recursos a serem aportados na Amazônia praticamente vão se equiparar aos do Sudeste, principal polo industrial do país.<

É o que indica levantamento feito pela Folha com base no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e nos principais projetos privados em andamento.

Basicamente, são obras de infraestrutura (energia, transporte e mineração). Juntas, elas criarão condições para a instalação de indústrias e darão origem a um corredor de exportação pelo "arco Norte", que vai de Porto Velho(RO), passando por Amazonas, Pará, até o Maranhão.

Essa movimentação de cargas será feita por uma malha logística integrada por rodovias, ferrovias e hidrovias que reduzirão custos de exportação, principalmente para o agronegócio, que hoje basicamente utiliza os portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR).

ENERGIA AMAZÔNICA

O setor elétrico é a força motriz dessa onda de investimento. As principais hidrelétricas planejadas pelo governo serão instaladas na região e, com elas, também se viabilizarão as hidrovias.

Projetos como Belo Monte (PA), Jirau e Santo Antônio (RO), Teles Pires e o complexo do Tapajós (PA) fazem parte desse novo ciclo de ocupação,acelerando o processo que se iniciou ainda sob a batuta do governo militar.

A Amazônia, que hoje participa com 10% da geração de energia no país, passará a 23%, até 2020. Em uma década, ela será responsável por 45% do aumento da oferta de energia no sistema elétrico brasileiro e se tornará um dos motores do crescimento.

CONTROVÉRSIAS

Para acelerar a implantação dos projetos, o governo federal estuda uma série de mudanças legais. Entre elas estão a concessão expressa de licenças ambientais, a criação de leis que permitam a exploração mineral em áreas indígenas e a alteração do regime de administração de áreas de preservação ambiental.

Há ainda no Congresso um projeto de lei que, caso seja aprovado, tornará obrigatória a construção de hidrelétricas juntamente com as eclusas, viabilizando o transporte hidroviário.

O atual modelo prevê a construção das usinas e somente a apresentação do projeto da eclusa, obra que deve ser feita pelo governo. O avanço sobre a Amazônia gera controvérsias entre ambientalistas, que acusam o governo de repetir um modelo de desenvolvimento não sustentável e que conduz a região ao colapso social. Para os ambientalistas, as obras das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Porto Velho (RO), e de Belo Monte, em Altamira(PA) são exemplos.

Ambientalistas apoiam o desenvolvimento na Amazônia, mas consideram que os projetos atuais são uma volta ao modelo exploratório implantado pelo governo militar. "Só estão pensando no que dá para tirar de lá", diz Roberto Smeraldi, diretor da Amigos da Terra. Para ele, o governo abriu mão do desenvolvimento regional e sustentável preocupado somente em como dar suporte ao crescimento econômico do país nos próximos anos.

Segundo Telma Monteiro, especialista em energia da Kanindé, há estudos indicando que terá início uma nova fase de desmatamento, aumentando as emissões de carbono."Isso sem contar o caos social que será implantado nas cidades", diz Monteiro. "Esse custo nunca é calculado nos estudos." Em Porto Velho (RO), onde estão sendo construídas as usinas hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, já há 120 mil pessoas a mais que foram atraídas pelas promessas de trabalho. Resultado: não há vagas nas escolas, e os hospitais não suportam a demanda. A cidade continua sem água e esgoto.

"Na BR-163, que já foi considerada um modelo de projeto sustentável, ninguém pensa mais nos problemas decorrentes da ocupação irregular em torno da rodovia e os conflitos que isso traz", diz Brent Millikan, diretor da International Rivers. Para ele, as mudanças em curso são uma afronta à democracia e à legislação vigente. "Licenças ambientais, que deveriam ser atestados de segurança dos projetos, hoje são consideradas um atraso. É esse o projeto de desenvolvimento que vamos apoiar?", indaga Millikan.(JW/AB)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Google Street View começa a mapear a Amazônia


REDAÇÃO ÉPOCA
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Barco desce o rio Negro, no Amazonas, para mapear a floresta e comunidades no Google Street View (Foto: Divulgação)


 

O Google Street View, ferramenta que oferece fotos de diversas cidades do mundo em 360º, chegou à Amazônia. Uma parceria do gigante da internet com a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) vai levar essa tecnologia para a região, gerando fotos e compartilhando a paisagem e cultura local com o mundo.
O projeto teve início nesta terça-feira, com as primeiras imagens do Rio Negro sendo capturadas por barcos com o trike acoplado - uma espécie de triciclo com câmeras. Os barcos vão fotografar o rio Negro e a floresta, e contam com a participação de moradores da comunidade local, que estão sendo capacitados para operar o trike.
Depois da coleta, as imagens ficarão disponíveis na internet, no site do Street View. "Assim que todas as imagens estiverem no ar, poderemos compartilhar a cultura e a beleza de locais da Amazônia com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo", afirma Karin Tuxen-Bettman, líder do time de Geolocalização do Google.
Segundo o superintendente geral da FAS, Virgílio Viana, o projeto oferece mais do que apenas entretenimento, e assume "um papel de extrema importância na conscientização sobre os desafios de conservação, desenvolvimento comunitário e sustentabilidade na Amazônia. Esperamos que esta iniciativa fomente outras parcerias que também possam unir a alta tecnologia com a sabedoria dos moradores da floresta".
BC  

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Rabetas substituem viagens de canoas

Família se desloca de rabeta no Paraná Grande, em Juruti. Foto: Miguel Oliveira

Quem viaja pelos igarapés, furos e paranás amazônicos já não vê mais as tradicioais canoas - de remo ou à vela - como meio de transporte dos ribeirinhos.

De uns tempos para cá, o que se vê é uma proliferação de rabetas singrando as águas da região.
São mais rápidas, mas não são ecológicas. É inestimável a poluição provocada pelo uso de combustível, cujo restos são jogados diretamente na água.

domingo, 26 de junho de 2011

Manejo florestal comunitário e familiar é tema de simpósio em Santarém


Vinicius Soares Braga
 
O equilíbrio das relações entre comunidades e empresas para viabilizar o manejo florestal será tema do simpósio de encerramento do projeto Floresta em Pé, que acontece de 28 a 30 de junho, no hotel Barrudada em Santarém. Representantes de comunidades envolvidas com planos de manejo florestal, órgãos de governo relacionados às políticas para o setor, além de pesquisadores e professores se reunirão para analisar alternativas para consolidar o manejo florestal comunitário e familiar.

Na Amazônia brasileira, as florestas destinadas a áreas como projetos de assentamentos e reservas extrativistas  constituem a maior parte das terras com regularização fundiária definida. “São cerca de 30 milhões de hectares de florestas destinadas ao manejo comunitário e familiar e que podem ser exploradas de forma sustentável”, afirma o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental Milton Kanashiro.

Para o setor madeireiro, essas áreas representam oportunidade de exploração florestal legalizada. Já para as comunidades, desprovidas dos meios de produção para execução de planos de manejo, a parceria com empresas é a forma para viabilizar essa atividade.

De acordo com o coordenador do projeto Floresta em Pé, analista ambiental do Ibama Hildemberg Cruz, o manejo florestal dessas áreas representa a principal possibilidade de ganho econômico para muitas dessas comunidades, garantindo a conservação da cobertura vegetal.

PROGRAMAÇÃO - O primeiro dia do simpósio terá quatro sessões técnicas. A primeira abordará experiências de comunidades com manejo florestal; o tema seguinte será o manejo de uso múltiplo na Amazônia; a terceira sessão tratará dos acordos entre empresas e comunidades; por fim, questões relativas à política pública e às normas vigentes para o manejo florestal comunitário e familiar encerram a rodada de sessões técnicas.

O segundo dia do evento será dedicado à elaboração de propostas e compromissos sobre acesso, uso e conservação dos recursos florestais junto às instituições públicas presentes. Já no último dia da programação os participantes poderão optar entre duas visitas de campos: projeto de assentamento Moju, onde o Grupo Natureza Viva produz óleo de andiroba, ou cooperativa Coomflona, na Floresta Nacional do Tapajós, que elabora seu plano de manejo e organiza a venda da madeira explorada por meio de licitações.

PROJETO - O Floresta em Pé tem como objetivo promover a gestão sustentável dos recursos florestais em áreas de florestas de uso comunitário e familiar. Para tanto se utiliza de apoio técnico, de estudos-chave, da implantação de infraestruturas para melhorar os processos produtivos e do estabelecimento de parcerias equilibradas entre empresas e comunidades.

O trabalho é um projeto de cooperação franco-brasileiro financiado por recursos, de um lado, da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) por meio do Fundo Francês pelo Meio Ambiente Mundial (FFEM) e, do outro, por contrapartida do governo brasileiro. A Embrapa Amazônia Oriental é uma das parceiras do projeto, para o qual contribui com suas competências técnicas na elaboração dos planos de manejo e na capacitação das técnicas de exploração de baixo impacto.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Borracha não foi contrabandeada e sim despachada pela alfândega

Lúcio Flávio Pinto
Articulista de O Estado do Tapajós


A Amazônia não conquistará sua autodeterminação com barreiras, retórica ou satélites, mas com o melhor conhecimento sobre si mesma.

Belém - Numa visão simplista, a culpa pelo fim do período de maior enriquecimento da Amazônia, entre 1840 e 1910, tem nome, sobrenome e nacionalidade certas: o inglês Henry Wickham. Bem na metade do ciclo de expansão da economia gomífera, o aventureiro britânico teria se infiltrado em terras brasileiras para contrabandear ("biopiratear", na linguagem de hoje) sementes da Hevea Brasiliensis, espécie nativa amazônica, única fonte de borracha para uso industrial até então. Levadas para o Ceilão, as sementes floresceram com tal exuberância que, menos de uma década depois de terem chegado ao mercado mundial, acabariam com o boom da borracha extraída nos seringais amazônicos, abrindo um rastro de decadência na região.

Elevado à condição de lorde do império britânico pelo rei George V, Sir Wickham é tratado até hoje pela maioria dos intelectuais da região (e mesmo do país) como um reles traidor, o bandido responsável pela débâcle da Amazônia, que roubou as sementes da seringueira e clandestinamente as fez plantar nos redutos asiáticos de sua majestade, acabando com o fausto de Belém e Manaus, cidades que transitaram do século XIX para o XX equiparáveis às mais afluentes capitais do mundo.

Não importa, que há duas décadas esteja acessível para consulta o livro no qual o americano Warren Dean documenta história completamente distinta da versão corrente no Brasil. Com base em documentos oficiais, Dean provou que Wickham obteve autorização oficial para a remessa das sementes para a Inglaterra, devidamente declaradas na alfândega e ao abrigo das normas legais em vigor, não só com o aceite, mas até mesmo com o estímulo das autoridades. Se quisesse, o Brasil podia até ter participado das experiências que, iniciadas no Kew Garden de Londres, se estenderiam ao Ceilão e à Malásia.

Deitados eternamente em berço esplêndido, conforme referenda o hino nacional, talvez julgássemos, que um monopólio conferido pela natureza, tornando a seringueira endêmica apenas na Amazônia, não poderia ser quebrado pelo homem. Com o conhecimento (e a necessidade) à nossa frente, os ingleses não partilhavam essa convicção. Apostaram na hipótese contrária. O que se convencionou chamar de pirataria foi, na verdade, um bem sucedido empreendimento científico e comercial que, até se consumar, exigiu quase meio século de engenho, arte e dinheiro.

Foi o tempo que decorreu desde a formação do plantio de Wickham no vale do rio Tapajós, no Pará, até a Ásia inundar um explosivo mercado consumidor com quantidade compatível de borracha natural, a um preço e com uma qualidade adequadas à escala industrial, naquele momento. Se fosse preciso roubar, contrabandear ou piratear as sementes, sem dúvida a nação líder do nascente mundo industrial, carente de matéria prima em maior quantidade, mais barata e de qualidade confiável (condições não supridas pelo fornecedor monopolista), não hesitaria em agir dessa forma. Agiu assim em vários outros países e situações. Mas não foi nem necessário: os brasileiros, e particularmente os amazônicos, seduzidos e iludidos pelos jorros constantes de dinheiro, que recebiam pela venda da borracha, achavam que o boom seria eterno, ou pelo menos duradouro.

No seu excelente livro, Dean diz que a natureza, de regra benfazeja com a Amazônia, foi madrasta perversa no caso da borracha. O excesso de água e de umidade, e a inexistência de um período seco mais bem definido, desenvolvem pragas fatais à seringueira quando sua concentração é aumentada para que o seringal alcance um tamanho competitivo. Na Ásia (e em áreas não-amazônicas do Brasil), esse problema não existe ou não tem a mesma gravidade. Por mais que as autoridades brasileiras tivessem sido previdentes, antecipando os movimentos da história e sendo aplicadas nas medidas de proteção ao cultivo, ainda assim a Amazônia teria sido derrotada na luta pela borracha.

Para os que, desprezando fatos e argumentos, optarem pela origem estrangeira (e ainda por cima, americana) do autor para desqualificar sua obra, convém lembrar que o Brasil deve a esse magnífico schollar, além do livro sobre a borracha (já reconhecido como o trabalho inaugural de uma história ecológica já dotada de autonomia), o mais profundo e belo estudo sobre sua mata atlântica. Aliás, é bom não esquecer, a mata atlântica foi a nossa primeira Amazônia, tanto pelo seu potencial de realizações como pelo seu resultado de destruições.

O "caso" da borracha, o capítulo mais polêmico da história (real ou presumida) de apropriação de bens do patrimônio natural da Amazônia, vem a propósito do mais recente episódio, que chegou à grande imprensa na semana passada, depois de ter transitado bem antes pelos circuitos especializados: o patenteamento de plantas e frutas da Amazônia no estrangeiro por empresas internacionais. Causou escândalo a notícia de que, a partir de agora (na verdade, desde 2001), quem quiser usar comercialmente o título cupuaçu - e alguns dos seus derivados - na Europa, nos Estados Unidos ou no Japão vai ter que pagar royalties ou se expor a ser multado por uma firma japonesa, a Asahi Foods, estabelecida em Kyoto (cidade que se tornou ainda mais célebre por ter recentemente abrigado conferência ecológica, que teve como um dos seus propósitos justamente estabelecer regras de respeito ao patrimônio genético da humanidade, especificamente definido conforme sua dispersão geográfica).

Da forma como foi anunciado, o fato desabou como uma bomba com megatons semelhantes aos da pirataria de Wickham, de quase um século e meio atrás. O problema tem sua gravidade, embora provavelmente não na dimensão de uma catástrofe irremediável. Se servir de alerta e retirar do sono letárgico alguns setores da estrutura governamental, terá cumprido o seu papel de catarse.

Contra o roubo dos direitos sobre o patrimônio genético ou o conhecimento nativo é duvidosa (ou completamente inócua) a eficácia de ferramentas convencionais, como o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) ou todo o aparato geopolítico e policial. Eles não são dispensáveis, mas não são suficientes, sequer são as armas mais importantes. A principal é o saber, o domínio dos processos do conhecimento, o saber fazer (e como) e a informação exata e pronta. Não é através do isolamento e da pretensa auto-suficiência que se conquistam tais posições: é colocando-se no mundo, diante dele (e, quando o caso, contra ele). Mas não na posição de um encrenqueiro ou de um presunçoso, mas de alguém confiante na sua própria força, por sabê-la consistente e convincente.

O saber resulta de processos educativos, científicos e civilizatórios. Processos que não podem ser traduzidos por índices quantitativos nem por bravatas retóricas. Resulta de 99% de transpiração e 1% de inspiração, como receitava Picasso para uma área da criação humana, a artística, onde mais peso costuma ter o dom natural dos indivíduos, ou sua "vocação", do que sua transpiração. Mesmo que possua satélites, radares, aviões, militares e soldados rondando seus limites e patrulhando seu interior, a Amazônia continuará exposta aos interesses e disposições alheias, se continuar dependendo dos minguados recursos materiais colocados à disposição dos seus estudantes, tecnólogos, pesquisadores e cientistas. E se esses minguados recursos, desprezíveis até pelos anêmicos parâmetros nacionais, permanecerem subordinados a diretrizes obtusas, vesgas, exóticas, coloniais.

Não será com uma nova muralha da China que a região conquistará sua autodeterminação, a capacidade de determinar seu destino na interlocução com o mundo, mas com o melhor conhecimento sobre si mesma. Num momento em que se tratam de questões amazônicas nas principais praças mundiais, como um tema de ciência e de comércio, a sede territorial não pode ter uma relevância meramente retórica. Ou se condenará a sustos e sobressaltos como os de Wickham e o do cupuaçu japonês.

O mais recente episódio fez o escritor e jornalista Aníbal Beça lembrar um caso que aconteceu bem do início da Zona Franca de Manaus: "os nossos caboclos inventivos resolveram contrabandear relógios dentro das cascas de cupuaçu. Serravam a casca e retiravam a polpa, e em seu lugar colocavam relógios, de preferência da marca Seiko. Depois colavam, sem deixar nenhuma marca. O crime perfeito". Um nosso repórter policial do jornal onde Beça trabalhava cunhou uma palavra para esse tipo de crime: o "seikoaçu". Dizia-se então que muita gente, enriqueceu exportando Seikoaçu, até descobrirem o golpe. O crime - atesta o escritor - só foi descoberto por acaso: "um desses contrabandistas deixou cair o cupuaçu. Aí caiu relógio pra tudo que foi lado".

Com base nessa experiência, Beça sugere às entidades e empresas nacionais, quando forem vender nos mercados europeus, americanos ou japoneses, "registrarem o nome dos produtos da fruta como Seikoaçu". A solução seria engenhosa, ainda que também significasse uma capitulação à esperteza dos nossos concorrentes estrangeiros. O novo produto teria ainda que sofrer uma adaptação aos novos tempos: ao invés de relógios made by Zona Franca dentro de caroços de cupuaçu, mais atraente do ponto de vista comercial seria colocar sementes de cobiçadas plantas amazônicas dentro dos Seikos de hoje.

domingo, 5 de junho de 2011

ANA contrata consultoria do Banco Mundial para dimensionar aqüífero Alter-do-Chão

Miguel Oliveira
Enviado especial a Porto Velho

A Agência Nacional de Águas(ANA), órgão regulador do uso e exploração dos recursos hídricos no Brasil contratou no ano passado, junto ao Banco Mundial, uma consultoria internacional para dimensionar  a extensão e a reserva de água doce do Aquífero Alter-do-Chão, identificado no ano passado na região de Manaus até Santarém, no oeste do Pará. A informação é do coordenador de Produção de Águas da ANA Flávio de Carvalho, que esteve em Porto Velho, esta semana, participando do II Encontro de Jornalistas da Região Norte, promovido pela Fundação Banco do Brasil.

Segundo Flávio de Carvalho, a agência ainda analisa com reservas o potencial e o uso imediato dessas águas subterrâneas, a exceção do município de Manaus, onde os poços profundos de captação da empresa amazonense de saneamento já  bombeiam a água do aqüífero Alter-do-Chão. “ A ANA considera o aqüífero Alter-do-Chão uma reserva estratégia para o Brasil, mas em relação ao aqüífero Guarany há um desvantagem, pois a região onde se encontra é remota, com pouca população e grande oferta de água superficial”, explicou Carvalho.

“O Aquífero Guarny está assentado sob diversos países e regiões densamente povoadas da América do Sul e por isso sua exploração tem prioridade nas atividades da agência reguladora, ao contrário do aqüífero Alter do Chão”, ponderou o coordenador.
Quanto a qualidade da água e o grau de dificuldade para sua exploração subterrânea, 

Carvalho explicou que o aqüífero Alter do Chão leva vantagem se comparado ao Guarany. “ A água do Guarany é cristalina, isto é, a água está dentro ou nas fissuras das rochas, o que dificulta um pouco sua exploração. Já o aqüífero Alter-do-Chão tem a água  em bacias sedimentares, de mais fácil captação”, comparou o coordenador da ANA.

Flávio de Carvalho voltou a defender o fortalecimento dos comitês de bacias hidrográficas para a definição do uso sustentável dos recursos hídricos brasileiros. Os comitês são formados pelo governo, entidades da sociedade civil e empresários e têm a função de definir normas para a utilização da água para consumo humano e seu uso industrial ou agrícola.

A experiência bem sucedida de comitê de bacias são as do rio Paraíba do Sul(São Paulo e Rio de Janeiro) e rio das Velhas( Minas Gerais).

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Padre Edilberto faz conferência na Itália contra obras do PAC na Amazônia


O padre Edilberto Sena, diretor da Rádio Rural de Santarém e membro da Frente em Defesa da Amazônia, faz amanhã, em Bassano de Grapa, cidade próxima a Veneza, norte da Itália,  uma conferência para um público de cerca de 500 pessoas sobre os impactos desastrosos dos projetos do PAC sobre os povos da Amazonia. 

Além de Edilberto, serão conferencistas lideres populares de El Salvador e Nigéria,e religiosos da Itáilia.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Desmatamento acelerado na Amazônia demonstra a farsa da Moratória da soja

Edilberto Sena
Frente em Defesa da Amazônia
Santarém, Pa

Em 2006, quando a ABIOVE (associação de empresas  comercializadoras  de grãos)  e algumas ONGs ambientalistas (WWF, GREENPEACE, CI, etc) discutiam fraternalmente a construção de  uma moratória para estancar o desmatamento na Amazônia, o movimento popular, Frente em Defesa da Amazônia, FDA de Santarém,  participou de três encontros com as negociadoras da moratória. A proposta fraterna era de criar uma moratória de dois anos, com possibilidade de extensão por mais um ano, quando as comercializadoras de grãos não comprariam nenhuma commodity do agro negócio, em terras que fossem desmatadas.
Nas três reuniões que a FDA tomou parte, foi apresentada a sua proposta de uma moratória de dez anos, em vez de dois e a partir de 2003, em vez de 2006. A razão da proposta era simples. Os membros da FDA são todos nativos da Amazônia, filhos de pequenos agricultores e trabalhadores na região. Tinham experiência que na Amazônia não se derruba mata virgem e logo planta espécies exóticas, como é a soja lá. Primeiro a floresta é derrubada e amansada, plantando  mandioca, milho e arroz. No segundo ano, a terra é limpa e se planta mandioca, macacheira e feijão. Só a partir do terceiro ano de amansamento da terra é que se planta a soja e outras espécies exóticas.
Diante da proposta do movimento popular de Santarém, os representantes da ABIOVE logo reagiram, dizendo que estavam com boa vontade de cuidar do meio ambiente e que dez anos era exagero. Caso dois anos  não fossem suficientes, se prolongaria a moratória por mais um ano. As ONGs presentes também acharam que a FDA exagerava e que se devia negociar os dois anos, pois já era um avanço de diálogo entre as grandes empresas multinacionais (Bunge, Cargill, ADM, Maggi, ECT) aceitarem dialogar com os defensores do meio ambiente. Ao final do terceiro encontro, os representantes da Frente em Defesa da Amazônia se retiraram do tal diálogo.
A razão da retirada foi a percepção de que a moratória de dois anos era uma farsa para acalmar a pressão dos compradores internacionais dos produtos do agro negócio brasileiro (Mc Donald, Unilever, etc).  Algumas ONGs se ofenderam com a retirada do movimento popular de Santarém  e a acusação de farsa da moratória.
O tempo passou, a moratória entrou em julho de 2006, ao chegar em julho de 2008, os promotores prolongaram por mais um ano, depois que um relatório do Greenpeace constatou que teria havido desobediência de vários plantadores de soja, que derrubaram matas durante o período combinado. Houve de fato um esfriamento no desmatamento nos anos 2006 a 2009, que não foi resultado da tal moratória. Houve neste período também a grave crise financeira internacional que atingiu o comércio do agronegócio exportador do Brasil; houve uma queda no preço da soja no mercado internacional, o que contribuiu certamente para o aclamado sucesso da moratória da soja.
No entanto, não mais se falou na questão nos anos seguintes, parecia que o problema do desmatamento na Amazônia havia sido controlado. Infelizmente, apesar da moratória o desmatamento na Amazônia voltou a ser alarmante nos dois últimos anos. Vejamos o que diz a estatística dos medidores confiáveis, Impe e Imazon.
Esta afirmação está no blog  Lingua Ferina do agrônomo do INCRA Cândido Cunha.
“Inpe confirma: explosão do desmatamento em Mato Grosso e Pará.
 O Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) divulgou hoje (18 de maio) os dados do desmatamento dos meses de março e abril de 2011. De acordo com o Inpe, foram detectados 593 km² de desmate nesses dois meses. Desses, 261 km2 foram de corte raso - total supressão da floresta -, e o restante foi degradação florestal. Os dados confirmam o boletim divulgado ontem  pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que mostrou uma explosão no desmatamento em Mato Grosso. Apenas no Estado, o Inpe detectou 480 km2 de desmatamento, 80% do total.
Em toda a Amazônia, foram 115,6 km2 detectados em março  e 477,4 km2 em abril. O instituto não recomenda a comparação dos números com os dados de outros meses, já que a cobertura de nuvens em cada mês é diferente. Entretanto, os números de 2011 são expressivamente maiores do que os do ano passado: em 2010, o sistema detectou apenas 51,7 km2 de desmatamento em março e 51,8 em abril. Os dados do Inpe  são utilizados pelo governo para suporte à fiscalização e controle de desmatamento. Os números consolidados, do sistema Prodes, devem ser divulgados em agosto.
Estados
O desmatamento nos outros Estados da Amazônia foi consideravelmente menor do que o de Mato Grosso. Entretanto, ainda assim foram maiores que no mesmo período do ano passado. Além disso, a cobertura de nuvens impediu o monitoramento em grande parte da região. No Pará, por exemplo, foram detectados 67,2 km2 de desmatamento, e o sistema só conseguiu monitorar o sul do Estado. Rondônia desmatou 41,3 km2 de florestas. Nos outros Estados, somados, não foi detectado mais que 4 km2. Os pesquisadores do Inpe Gilberto Câmara e Dalton Valeriano, junto com a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, convocaram uma coletiva de imprensa para hoje a tarde, para comentar os dados divulgados”.
Diante desse crescimento do desmatamento na Amazônia,  surgem algumas desculpas de uns jogando a responsabilidade para outros. São acusados os fazendeiros, também os ruralistas, mas os plantadores de soja estão calados, a ABIOVE se faz de morta, as grandes ONGs não falam mais na moratória. Por que falar? O que se sabe é que com o alívio da crise financeira internacional, o preço da soja voltou a subir e a exportação da commodity vai de  vento em popa. Pelo porto da Cargill em Santarém, falam em um milhão de toneladas de soja embarcadas em um ano de 2.010. Está havendo aumento de desmatamento e plantio de soja na região de Santarém? À boca pequena se fala pela cidade que sim, mas o Greenpeace não apareceu mais para fazer pesquisa e relatório. Daí que fica valendo a afirmação da Frente em Defesa da Amazônia em 2006 – “a moratória da soja é uma farsa para inglês ver”. E assim, continua o capaital devorando as florestas e as culturas amazônicas.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Eurico Pinheiro: mais que um mestre, um sonhador

Foto: Paulo Fernandes/Embrapa
   
Ruth Rendeiro*

Há alguns anos eu pensei em escrever um livro que já tinha até título: Antes que a morte chegue. Justamente para reunir textos de pessoas que considero ímpar, marcantes em minha vida e na vida do Pará, da Amazônia, do mundo e que sentia vontade de homenagear antes que elas morressem. Já fiz tantos textos sobre amigos queridos que já se foram e a dúvida se eles leram, tomaram conhecimento do quanto eu os amava, me perturba. Queria tanto que eles soubessem disso em vida ... 

De novo estou aqui escrevendo sobre alguém querido que acaba de nos deixar. A comunidade científica está de luto, a serigueira chora, a UFRA (que ele ainda se confundia e acabava chamando algumas vezes de Fcap) e a Embrapa Amazônia Oriental estão lamentando a morte do professor e pesquisador Eurico Pinheiro. Mas os que conviveram com ele têm muito mais a lamentar.

Não fui sua aluna, sua assistente ou companheira de pesquisa. Tive o privilégio, contudo, de conhecer o gentleman, aquele senhor já idoso que tinha alma jovem, espírito inovador e que acima de tudo amava o que fazia.

Tinha uma paciência invejável e uma didática para explicar assuntos complexos que a todos encantava. Falava do mal-da-seringueira ou o Mycrociclus ulei, como se fosse um conhecido antigo que apresentava aos leigos como alguém que mexeu com a heveicultura tão drasticamente que ao final os ouvintes poderiam passar a odiá-lo por tantos danos. Mas ao mesmo tempo se mostrava otimista com a superação dos problemas e acreditava veementemente que um dia o Brasil voltaria a ser o reino da borracha e a Amazônia a ter seus plantios rentáveis de antigamente.

Há cenas muitos marcantes que me remetem àquele que serviu a gerações repassando seus conhecimentos e levando-as a acreditar que as limitações na saúde (enxergava pouco, os passos já não eram firmes) ou a idade já avançada não representavam impeditivos suficientes para não sonhar.

Em uma das Semanas Nacional de Ciência e Tecnologia, quando a Embrapa Amazônia Oriental abriu suas portas para moradores próximos a sua sede e muitas escolas da periferia, alguns pesquisadores não mostraram interesse em participar; outros o fizeram a contragosto e um pequeno grupo se dispôs a explicar, com doçura, paciência e sentimento àqueles que “são o futuro do Brasil” e lá estava o Dr. Eurico Pinheiro.

Ele parecia mais um vovô conversando com os netos. No meio da plantação de hévea próximo ao portão principal da Embrapa de Belém, ele explicava com entusiasmo o que era uma seringueira, para que servia seu látex, como o Brasil e em especial o Pará e o Amazonas, já foram ricos graças a essa planta. Incansável passou quase o dia inteiro no sol entre meninos e seringueiras.

Perdem as ciências agrárias, as gerações que não mais poderão usufruir de sua companhia e embevecidos ouvi-lo falar por horas sob a retomada da heveicultura na Amazônia, das pesquisas desde à época do IAN (Instituto Agronômico do Norte), dos clones que se mostravam tolerantes à doença, dos plantios consorciados que deixavam sua voz ainda mais emocionada. Perdemos nós seus colegas que não mais receberemos um bom dia especial acompanhado de bombons japoneses de sabores inusitados como kiwi e melão ou canetas especiais que trazia quando fazia uma viagem mais longa.

Pena que não comecei a escrever o livro “Antes que a morte chegue”. É tão difícil e doloroso falar dos que se foram e não mais poderemos abraçar.
 
*É jornalista

          

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Vicente Salles: 80 anos de fé


Lúcio Flávio Pinto

Vicente Salles fará 80 anos em novembro. Já possui o título de doutor honoris causa pela Universidade da Amazônia, a Unama, concedido em 2002. Não sei por que a Universidade Federal do Pará não partilhou essa merecida honraria. A oportunidade para redimir o erro se apresentará em novembro, quando é de se prever que os paraenses comemorarão a data para agradecer a tanta coisa boa produzida em nosso favor por esse historiador, folclorista, musicista e humanista.

Incansável, apesar das doenças, e sempre curioso e atrás de novidades, Vicente esteve em Belém para falar sobre “As raízes da cultura mestiça na Amazônia, durante o VIII Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte e II Reunião do Fórum Landi. Antes dele, Victor Sales Pinheiro leu um emocionante (e emocionado) testemunho sobre Benedito Nunes. O filósofo, crítico, professor e ensaísta, falecido recentemente, também recebeu o título honorífico da Unama. Mas também o da UFPA, que, por todos os títulos justo, falta a Vicente. O detalhe é que, sendo verdadeiramente sábios, Benedito e Vicente cresceram como autodidatas e sua formação acadêmica se limitou à graduação, um anticlímax ao fervor dos currículos Lattes. Uma afirmação do saber livre.

Durante sua palestra, Vicente fez mais uma generosa referência a este jornal, que muito me emocionou. Reproduzo o trecho que me diz respeito não por vaidade, mas em reconhecimento ao gesto de coragem do velho e admirado amigo. Vicente fez questão de enxertar a referência na sua palestra para dizer o que pensa a respeito de um personagem anatematizado pelas elites poderosas da terra. Uma forma de também estimular os que se oferecem à sociedade para seus defensores. E, por fim,dizer que não está preocupado com esses Torquemadas. Seu lugar na história está de há muito garantido, com ou sem títulos em papel.

Segue-se o texto de Vicente Salles, a partir do paralelo que ele traçou entre as obras dos milionários americanos Henry Ford, no Tapajós, e Daniel Ludwig, no Jari.

Tal como Ford, Daniel Ludwig devastou grande parte da floresta nativa para um projeto de plantio de espécie uniforme, com inevitáveis alterações no ecossistema. O projeto contou mais uma vez com generosa ajuda oficial no tempo da ditadura militar. Quando Ludwig se convenceu do insucesso da empreitada, saiu da Amazônia, deixando o resultado de ações empresariais analisadas pelo espírito investigativo do jornalista Lúcio Flávio Pinto, que acompanhou o empreendimento em todas as suas fases. A bibliografia desse jornalista-escritor contém o grito de alerta que poucos têm ouvidos para ouvir. Um dos textos mais vigorosos – Amazônia, a fronteira do caos, data de 1991. Sua primeira palestra sobre a Amazônia data de 1970. Exatamente 40 anos de lutas e de enfrentamento com os poderosos.